CARTA DE PROTESTO À ACADEMIA

Um dos melhores momentos da noite do Oscar 2005, que consagrou MENINA DE OURO e deixou mais uma vez as mãos de Scorsese abanando: o protesto elegante de Jorge Drexler, autor e intérprete da canção “Al Otro Lado Del Rio” (de DIÁRIOS DA MOTOCICLETA), que acabou levando o prêmio da categoria. Impedido de cantar sua própria composição na cerimônia, em favor de nomes de “maior peso” para o público americano, Drexler teve de aguentar duramente sua canção ser destruída pela guitarra estridente de Santana e a voz desafinada de Antonio Banderas. Sorte dele que os membros da Academia votaram antes da performance canhestra de Banderas e Santana. Ao receber o prêmio, a desforra: no lugar do discurso, Drexler entôou a canção de forma apropriada, fazendo enfim o seu show.

Vários grandes nomes protestaram contra a decisão de excluir Drexler do show, antes - Alejandro González Iñarritú, Alfonso Cuarón, Nelson Pereira dos Santos, Gael Garcia Bernal - e depois - Catalina Sandino Moreno, Joshua Marston, Morgan Spurlock - da cerimônia. Hoje, uma carta assinada por todas estas e mais algumas celebridades, estará sendo entregue ao Presidente da Academia, Frank Pierson, pelo produtor do longa Robert Redford. Confira abaixo o conteúdo da carta, escrita por Walter Salles:

Não poderíamos estar mais felizes, pelo autor maravilhoso que Jorge Drexler é, pelo fato de que uma canção que traduz de forma tão sensível a essência do filme ter sido reconhecida, e, finalmente, pela maneira tão digna com que Drexler recebeu o prêmio. A letra linda que Jorge escreveu para a canção fala das eleições éticas, morais, que devemos fazer na vida. Pois bem,também fiquei feliz pela forma solidária com que toda a equipe que fez o filme se comportou quando os produtores do show que transmitiram a cerimônia não permitiram que Jorge cantasse. Gael Garcia Bernal, que havia sido convidado a apresentar a canção na cerimônia, se recusou a fazê-lo para qualquer pessoa que não fosse Drexler. A força de DIÁRIOS DA MOTOCICLETA está no fato de que esse foi um filme feito de forma coletiva, em família. A alma do filme reside nesse todo onde as peças não são intercambiáveis. Fizemos esse filme com total liberdade, e não havia por que aceitar ou compactuar com qualquer tipo de imposição agora, depois de cinco anos de trabalho. Se aprendemos algo com aqueles dois jovens que elegeram uma margem do rio, é que é preciso lutar por aquilo em que a gente acredita. Era necessário manter a coerência e a integridade do trabalho realizado ao longo de cinco anos por uma equipe que veio de todas as partes da América Latina,e foi essa coerência que Drexler personificou no domingo à noite. Quanto à versão da canção que se ouviu, não tem qualquer semelhança com a versão original que está no filme, tanto na forma quanto no conteúdo. Estava equivocada até no cenário e no figurino. Se nos convidam para essa festa, que nos aceitem como somos, e não como acham que devemos ser.

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