Sei que estamos em março, mas antes tarde do que nunca.
Antes de tudo, vou adiantando que esta é a lista dos melhores filmes que eu vi em 2005, portanto, infelizmente, muita coisa vai ficar de fora pelas impossibilidades que eu tive este ano. Infelizmente não pude ir ao cinema com tanta freqüência como eu gostaria de ter ido. Mas, em contrapartida, tive muita sorte nas vezes em que pude ir. Portanto, segue abaixo a minha lista.
1) KING KONG (Peter Jackson)
O novo KING KONG de Peter Jackson é uma homenagem e um aprimoramento do filme original de 1933. Um resgate dos emocionantes filmes de aventura que povoavam as matines dos primórdios do cinema ou fizeram a cabeça dos espectadores dos anos 80 com a série INDIANA JONES. Um equilíbrio maduro e coeso de drama e ação, com toques de terror. Resumir as qualidades deste filme em poucas linhas é quase impossível, portanto, recomendo lerem a minha resenha completa.
2) O JARDINEIRO FIEL (Fernando Meirelles)
Com O JARDINEIRO FIEL, Fernando Meirelles se consolida como um dos melhores diretores que estão despontando atualmente. Inspirado em um romance de espionagem de John Le Carré, O JARDINEIRO FIEL do diretor brasileiro consegue manter os aspectos essenciais do livro original, trazendo em si cargas de suspense, tensão e crítica sociopolítica na medida certa. Mas, o destaque principal fica para o drama e o romance presentes na história do casal principal, a determinada Tessa (Rachel Weisz) e seu marido, o discreto diplomata Justin Quayle (Ralph Fiennes). Grande parte da força e de credulidade imbuída na trama de deve à atuação primorosa deles dois. E também à maturidade de Meirelles, que, não repete o ritmo frenético de CIDADE DE DEUS em seu novo filme, pois sabe que a trama pede um tom diferenciado, por vezes, quase intimista, apesar de toda a tensão que permeia a história.
3) A QUEDA: AS ÚLTIMAS HORAS DE HITLER (Oliver Hirschbiegel)
Muitos criticaram A QUEDA, acusando-o de humanizar o ditador Adolf Hitler. Como se o fato de mostrá-lo como um ser humano minimizasse os horrores que ele propagou durante a Segunda Guerra Mundial. Eu, contudo, acredito que essa humanização tem exatamente o efeito contrário. Amplifica a níveis muito mais extensos os crimes que cometidos tanto por ele quanto por seus seguidores. È muito fácil enxergar Hitler como um monstro, como um ser a parte da humanidade, mas percebê-lo como uma pessoa redimensiona a tragédia que foi aquela guerra, e nos faz lembra que o mesmo ser humano capaz de um sentimento tão sublime, como o amor, também se permite enredar por uma trilha tão vil quanto àquela que leva a um ódio irracional. Nunca antes, em um filme, consegui perceber a verdadeira dimensão do que é a guerra. Sem desmerecer magníficos filmes já realizados sob o tema, como O PIANISTA ou A LISTA DE SCHINDLER, mas, com A QUEDA, o fanatismo cego e inerente que envolve qualquer tipo de conflito (em ambos os lados) vêem à tona e deixa claro o quanto qualquer guerra é imperdoável e inexplicável do ponto de vista da ética e da racionalidade. Assim sendo, essa humanização dos “vilões” é um dos grandes trunfos deste filme, e, grande parte do mérito se dá ao impecável trabalho dos atores, especialmente de Bruno Ganz, que faz o papel do ditador.
4) CLOSER - PERTO DEMAIS (Mike Nichols)
Ter levado um belo soco no estômago é sensação que se tem ao terminar de ver CLOSER. Um retrato amargo das relações amorosas, e por que não, uma verdadeira desconstrução do mito do amor romântico e dos finais felizes tipicamente hollywoodianos, esse filme tem a direção firme e experiente de Mike Nichols, associada a um grupo de atores do primeiro escalão em seu elenco como suas maiores qualidades. Jude Law, Julia Roberts, Clive Owen e Natalie Portman mostram aqui uma de suas melhores interpretações, especialmente Owen e Portman, que se destacam na trama. Ele como um cafajeste em falsa pele de cordeiro, e ela em uma mescla de inocência e malícia que só revela a verdadeira natureza nos minutos finais.
5) HERÓI (Zhang Yimou)
Zhang Yimou, diretor e roteirista de HERÓI, conseguiu elevar efetivamente os filmes de artes marciais ao cinema de arte. HERÓI é a combinação perfeita de sensibilidade, ação, romance e reflexão. O filme é uma experiência visual sem precedentes, com cenas de lutas belíssimas, com coreografias que mais lembram um gracioso balé do que uma batalha sangrenta, a união entre belos cenários, fotografia primorosa, figurinos requintados transforma cada cena em um quadro de beleza plástica imprescindível, que algumas vezes lembram pinturas em movimentos. Soma-se a isso uma história envolvente e personagens carismáticos e muito bem interpretados.
6) O CASTELO ANIMADO (Hayao Miyazaki)
Junta-se um gênio da animação como Miyazaki à história de uma das melhores escritoras de fantasia da atualidade, Dianne Wynne Jones. O resultado? Uma pequena obra-prima chamada O CASTELO ANIMADO. Feito praticamente todo em animação tradicional, com pouquíssimos e discretíssimos recursos de computação gráfica, o filme nos mostra que ainda é possível inovar e trazer beleza e encantamento através do uso de técnicas tradicionais. Basta um pouco de esforço, empenho e talento. As imagens sabem ser grandiosas quando necessário, aterradoras em outros momentos, e por vezes até mesmo minimalistas. Mas, como um bom filme não se sustenta apenas por belas imagens, Miyazaki traz novamente aquela que é a marca registrada de seu estúdio, o Ghibli: uma excelente e inteligente história, com personagens cativantes e complexos, sem o típico maniqueísmo de muitas animações e filmes (sejam americanos, sejam japoneses ou mesmo brasileiros) voltados para o público infantil.
7) SIN CITY (Robert Rodriguez/Frank Miller)
O filme, considerado por muitos críticos, incluindo essa que vos fala, como uma das melhores adaptações de quadrinhos feitas nos últimos tempos, é uma espécie de homenagem ao estilo noir, mas também simultaneamente uma reconstrução do gênero. Miller não quis apenas trazer os elementos narrativos do gênero para as suas HQs, ele, como fã do gênero, sabe que, como o próprio nome diz, já que noir vem do francês que significa negro, mas também sombrio e hostil, que esse tipo de história só funciona em um mundo de degradê cinzento, pincelado apenas com ocasionais vermelhos, seja de sangue, seja de lábios carnudos e sensuais, ou por uma amarelo enauseante. Nos quadrinhos, SIN CITY é uma das melhores experiência no uso do preto, branco e cinza já feita. E no cinema, as coisas não poderiam ter sido de outra forma. A fotografia e todo o jogo de luz e sombra usados no decorrer da película são de encher os olhos como há muito não se via em um filme preto e branco.
Mas SIN CITY não se restringe apenas a fotografia, cada seqüência apresenta um cuidado no enquadramento, uma preocupação com os mínimos detalhes de modo a envolver o espectador na narrativa. Sejam nos momentos em que a ação está em foco ou naqueles em que o diálogo é o mote mais importante. Destaque para a seqüência dirigida por Tarantino como “diretor especialmente convidado”.
8) ANTES DO PÔR DO SOL (Richard Linklater)
A continuação de ANTES DO AMANHECER (1995) mostra o reencontro de Jesse e Céline, nove anos depois. A situação é mais que o reencontro de dois amantes que se perderam por uma inconveniência da vida. Novamente é uma chance de se refletir sobre as relações amorosas tal qual no filme original. E não apenas sobre elas, mas sobre todos aqueles “e se…” que apavoram nossas vidas. Sobre as escolhas certas e erradas, as frustrações do dia a dia, as ilusões e sobre aquilo tudo que é maior que a nossa própria vontade. A mesma sinceridade existente nos protagonistas no filme original é encontrada aqui, talvez até um pouco maior, já que Delpy e Hawke escreveram o roteiro do novo filme junto com o diretor, trocando e-mails por mais de cinco meses, e colocando na tela muito de sua própria vida. O que temos aqui são dois adultos talvez um pouco mais amargos, talvez um pouco mais desiludidos, mas ainda, por mais que tentem negar, cheios de esperança, a mesma esperança que achavam ter esquecido naquela estação de trem em Viena. A diferença entre os dois filmes é exatamente a diferença que a vida traz às pessoas: maturidade. Ambos são filmes poéticos, mas enquanto o primeiro possui o frescor e a impulsividade desajeitada da juventude, o segundo tem a experiência e o desprendimento consciente da vida adulta.
9) BATMAN BEGINS (Christopher Nolan)
BATMAN BEGINS é um apanhado de acertos desde o começo ao final da película, e pode ser considerado, até o presente momento, o filme definitivo do Cavaleiro das Trevas.
Desde a escolha do elenco, as locações, o roteiro bem amarrado, os efeitos especiais, não há praticamente nada que possa depor contra este filme. Um alívio para os fãs da personagem, mas também uma diversão garantida pra quem não conhece praticamente nada do morcegão.
Em suma, toda a essência do que é O Batman está presente em BATMAN BEGINS. È também um filme em que, quem realmente importa, o Cavaleiro das Trevas, é o foco principal, ao contrário dos filmes anteriores. Soma-se a isso o equilíbrio praticamente perfeito dos momentos de ação, humor, romance e drama no decorrer da história. As cenas de ação empolgam, as de drama emocionam e o humor sutil (quase britânico) garante algumas da melhores tiradas do filme.
10) A NOIVA CADÁVER (Tim Burton e Mike Johnson)
Que me desculpem os fãs de ED WOOD, EDWARD MÃOS DE TESOURA ou BETTLEJUICE (que são filmes que eu adoro), mas os dois melhores trabalhos de Burton, na minha humilde opinião, são O ESTRANHO MUNDO DE JACK, no qual ele é produtor, e o delicioso curta VINCENT, sobre um garotinho que fantasia ser protagonista das antigas produções de terror da Universal. São as duas produções em que ele mais conseguiu se aproximar de um casamento quase perfeito entre estética e narrativa. Ou melhor, eram, porque, que A NOIVA CADÁVER, Burton finalmente se superar. O filme, que conta a história de Victor (John Depp) dividido entre o amor de sua noiva viva, Victoria (Emily Watson) e sua noiva morta, Emily (Helena Bonham Carter) contém todas as marcas registradas do diretor, como seu gosto pelo gótico, tons sombrios, sentimentos de inadequação e um humor negro inteligente, mas paradoxalmente possui uma leveza e um lirismo de conquistar o coração mais amargo. Há muito o diretor não nos presenteava com um filme tão encantador e emocionante.
Menções honrosas: DESVENTURAS EM SÉRIE (Brad Silberling), HARRY POTTER E O CÁLICE DE FOGO (Mike Newell), O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS (Zhang Yimou), A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATES (Tim Burton), OLD BOY (Park Chan-Wook), EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA (Marc Forster), QUATRO AMIGAS E UM JEANS VIAJANTE (Ken Kwapis).