NOVA RESENHA: MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO

Às vezes acontece de duas ou mais cabines para a imprensa rolarem no mesmo dia e no mesmo horário, forçando que dividamos nossas forças aqui na GALÁXIA para cobrir todas elas. Foi o que aconteceu essa semana, com sessões simultâneas de O CROCODILO, nova e imperdível comédia de Nanni Moretti, O PASSAGEIRO - SEGREDOS DE ADULTO, segundo longa de Flávio R. Tamberllini, e MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO, filme que revelou o “novo Charlie Kaufman”, segundo a crítica americana, no caso o roteirista Zach Helm, que deve ser indicado ao Oscar pelo trabalho. O Gelogurte ficou encarregado de conferir esse último, uma comédia existencial com Will Ferrell descobrindo que sua vida não é tão sua quanto ele achava. A direção é de Marc Forster, que você conhece de A ÚLTIMA CEIA e EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA. Clique aqui para conferir a resenha.
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Tadeu disse,
13 de Janeiro de 2007 @ 10:37
Tenho acompanhado a carreira do diretor Marc Foster e posso dizer que ele tem se transformado em um dos meus favoritos. Não vi o primeiro filme dele EVERYTHING PUT TOGETHER de 2000, na realidade não sei se saiu no Brasil. Se saiu … me avisem com que título porque gostaria de ver.
Engraçado que fui ver A ÚLTIMA CEIA em DVD após ter visto EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA e A PASSAGEM. Achei estes dois filmes sensacionais, o primeiro me fez chorar muito quando assisti … coisa raríssima de acontecer. E o pior que estava dentro do cinema e com a namorada… sem comentários. Ainda bem que ela chorou também!
Marc Foster conseguiu contar com maestria de como imaginação se transforma, falar sobre criatividade e sobre acreditar em sonhos.
Já A PASSAGEM é o melhor trabalho dele na minha opinião …. assisti o filme numa terça à noite, fui para casa pensando no filme, dormi, sonhei com o filme, passei a quarta feira pensando no filme …. e quinta tive que voltar ao cinema para ver de novo. Hoje em dia tenho o DVD e já vi o filme umas cinco vezes. Cada vez que vejo o filme …. descubro uma coisa nova.
Um dado interessante na carreira de Foster é que ele não escreve, ele escolhe os roteiros que quer filmar e até agora, parece-me, não repetiu nenhum roteirista. Apesar disso deixa sua marca, conseguindo fazer trabalhos autorais ricos em detalhes. Por essas e por outras que hoje tenho um encontro marcado com MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO. Vi o trailer e acho que o filme promete ….
Kas disse,
13 de Janeiro de 2007 @ 11:17
EVERYTHING PUT TOGETHER saiu em DVD no Brasil pela Imagem Filmes como GRITOS NA NOITE. É estrelado pela Radha Mitchell, as Melindas de MELINDA & MELINDA do Woody Allen, uma atriz bem interessante. Pena que saiu em tela cheia.
O trabalho de Marc Forster não me empolga tanto quanto a você. Não vi A PASSAGEM ainda e confesso que seus comentários me deixaram curioso. Acho A ÚLTIMA CEIA um filme competente mas frio e por demais distanciado. Não percebo nem um rasgo de invenção ou criatividade. O mesmo com EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA, um filme bonito e delicado mas que tem uma falha fatal pra mim. As cenas “imaginadas”, encenadas como um teatro, são tão pobres e, paradoxalmente, tão sem imaginação… Fico pensando o que um Terry Gilliam faria com aquilo. Como celebração do poder da imaginação, o filme peca no mais importante: não me fazer acreditar que a fantasia pode sim ser mais interessante que a realidade. Com as tais encenações pobres - definitivamente não é o forte do Forster - fico com a realidade de seu filme.
Pode ser que mude de idéia conferindo A PASSAGEM ou MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO, mas por enquanto sinto que Forster é um diretor em busca de uma voz e um estilo visual mais marcante.
Tadeu disse,
13 de Janeiro de 2007 @ 12:48
Dos filmes que eu vi …. A ÚLTIMA CEIA foi o que me empolgou menos, apesar de ter gostado. Concordo com vc em relação ao distanciamento e a frieza. Apesar que, muitas vezes, considero frieza uma qualidade, o que acontece neste caso. Talvez o distanciamento seja, também, pelo fato de Foster ser um alemão criado na Suiça que se dispôs a tocar em um tema tão americano como o tratado em A ÚLTIMA CEIA. Achei isso positivo para o filme … não sei se um diretor americano poderia narrar aqules fatos de maneira tão imparcial.
Agora em relação ao EM BUSCA AO TERRA DO NUNCA, o que você não gostou foi exatamente o que mais gostei. Lembro-me que entrei nesse filme sem expectativas, não havia lido quase nada sobre ele …. mas sabia que era sobre o escritor de Peter Pan.
Bom … acho que Terry Gilliam (que adoro!) estragaria o filme. Ou melhor, faria alguma coisa tão absurdamente diferente que perderia o sentimento fundamental da obra de Foster. E TIDELAND … sai no Brasil? …. Esse vai arrebentar!
Voltando ao filme … Foster consegue transformar todas aquelas cenas “imaginadas” em situações totalmente factíveis de se passar dentro da cabeça de qualquer criança. A magia está na total simplicidade e ingenuidade das brincadeiras. Sem exageros. Ele foi brilhante em conseguir resgatar um sentimento belo de inocência que praticamente não existe mais, no cinema e nas nossas vidas. Ao final do filme, a sensação que tive foi a de ter reencontrado um outro eu que estava adormecido, enterrado lá no fundo e que com o passar dos anos você, naturalmente, se esquece que existe … eu voltei a ser criança durante a exibição deste filme.
Vê A PASSAGEM e aí gente conversa. O que posso te adiantar é que o filme é bem diferente dos demais …. é bem mais psicológico, cheio de símbolos e metáforas, roteiro não linear …e deixa para o espectador tirar suas próprias conclusões. Gostei muito também da fotografia, da trilha sonora, efeitos sonoros… da estética do filme como um todo. Este é o típico filme que divide opiniões… é mais para aquele espectador atento que gosta de pensar e analisar as cenas e seus significados. Naomi Watts está ótima para variar e o Ryan Gosling me surpreendeu … muito bom! (agora tá todo mundo falndo de Half Nelson, né?). Guardada as devidas proporções lembra Lynch ….mas é muito mais pop!
Agora uma brincadeirinha …. não deixe o Marc Foster se transformar no seu novo Wes Anderson !
Kas disse,
13 de Janeiro de 2007 @ 13:31
Sem risco de Marc Forster virar o meu novo Wes Anderson! Não desgosto do Forster, só não me convenceu ainda.
Quanto ao distanciamento, pode ser extremamente benéfico para o filme. É só ver qualquer coisa do Kubrick, que parece olhar a humanidade de um microscópio. Mas os filmes de Kubrick, por mais cerebrais que sejam, envolvem plenamente.
Tadeu disse,
13 de Janeiro de 2007 @ 16:03
Você tem razão quanto ao Kubrick …. concordo plenamente, mas quando falamos em distanciamento e frieza o primeiro nome que passa pela minha cabeça … é David Cronenberg.
Kas disse,
13 de Janeiro de 2007 @ 21:23
Exato! Cronenberg também é assim: clínico. Só que não deixa de ser envolvente e perturbador. Já o Forster tenta algo assim em A ÚLTIMA CEIA mas só consegue ser apático. A impressão que eu tenho é que nem ele se envolve com suas próprias histórias, não se emociona. Talvez seja sua origem alemã-suíça, mas é similar ao cinema de Ridley Scott, outro que se coloca sempre acima dos temas que aborda. Apesar de gostar muito de CRUZADA.
Kas disse,
25 de Janeiro de 2007 @ 11:17
Finalmente fui ver MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO e cai de amores pelo filme, um dos grandes injustiçados no Oscar desse ano. Mas o filme de Forster nem precisa da estatueta para nada, já que inevitavelmente cairia na vala normalmente relegada aos trabalhos de Charlie Kaufman, com quem o roteirista Zach Helm vem sendo contantemente comparado (e já deve estar de saco cheio disso).
O importante é que MAIS ESTRANHO parte da premissa maluca mas o tratamento é bem menos afetado que os trabalhos de Kaufman, e talvez por isso mais próximo da (minha) realidade. Helm e Forster trabalham muito bem a dicotomia entre a visão do homem sobre Deus (ou do personagem de Ferrell sobre o de Thompson) e o de Deus sobre o homem, ou o criador sobre sua criação. É de ficar matutando dias sobre o assunto: teremos o direito de avacalhar com a obra-prima divina? Foi pra isso que Ele nos deu o livre-arbítrio? Ou não existe livre-arbítrio coisa alguma e é tudo parte do plano maior. E será que Deus (ou o Destino, chame como quiser) também fica às vezes com pena de eliminar um personagem de sua magnus opus, simplesmente por que caiu de amores por ele, mesmo prejudicando assim sua narrativa? Ainda tenho de elaborar melhor isso tudo.
Taí, Tadeu, MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO é o filme que me convenceu do cinema de Marc Forster. Agora estou ansioso pra conferir A PASSAGEM.
Tadeu disse,
30 de Janeiro de 2007 @ 10:51
Ótimo … Kas! Fui ver o filme naquele sábado como havia falado e também me apaixonei. Todo mundo que encontro e que gosta de cinema falo imediatamente sobre o filme… Você tem toda razão quando o aponta como o grande injustiçado do Oscar. A comparação com os roteiros de Kaufman é imediata … mas o Zack Helm não tem a preocupação de se parecer estranho, ou muito inteligente … como Kaufman! Ele conseguiu escrever uma estória simples que habita o inconsciente coletivo, sai do trivial, te emociona e te deixa pensando sobre o assunto.
Forster, por sua vez, consegue novamente achar uma estória em que percebe que há espaço para seu hábil jogo de imagem e som, leve e ao mesmo tempo profundo …. moderno sem ser modernoso … sutil … limpo! Ele tem uma sensibilidade incrível! Brian Reitzell na trilha sonora também contribui muito. O bom gosto e o cuidado visual de Forster é um dos pontos mais fortes de sua direção …. parece brincadeira …. mas até os créditos do filme no final são fantásticos. Este é o tipo de filme que, ao final, me dá aquele sorriso idiota no canto da boca …
Muito bom que vc gostou deste filme …. acho que vai gostar também de A Passagem. Aos poucos vc vai notar que o Forster tem um estilo que é dele.