LENDA DE BEOWULF, A (por Katchiannya)

beowulf - beowulf

BEOWULF, EUA, 2007
De Robert Zemeckis
Com Ray Winstone, Angelina Jolie, John Malkovitch, Anthony Hopkins, Robin Wright Penn, Crispin Glover, Brendan Gleeson

Em um dos vários contos de FUMAÇA E ESPELHOS, Neil Gaiman relata a história de um escritor em Los Angeles tentando vender a adaptação de um de seus livros para o cinema. Entre aventuras e desventuras, ele acaba voltando de mãos abanando para casa, não conseguindo realizar seu sonho de fazer parte do “mundo mágico do cinema”.

Talvez, esse conto fosse o modo de Gaiman expressar sua frustração por ele próprio nunca ter conseguido emplacar um trabalho no cinema. Escritor consagrado por público e crítica, premiado mundialmente, ele já havia conquistado os quadrinhos (SANDMAN), livros (CORALINE, DEUSES AMERICANOS), televisão (BABYLON 5), rádio (NEVERWHERE), faltava apenas a sétima arte.

Claro que ele conseguiu um “gostinho do sucesso” ao adaptar o roteiro de PRINCESA MONONOKE de Hayao Miyazaki para o inglês, mas ainda faltava uma “conquista definitiva”. E ela não veio com MÁSCARA DA ILUSÃO, com roteiro dele, considerado “cult demais” por uns, arrastado demais por outros. Tampouco veio com STARDUST, adaptação de um de seus livros, que rendeu um filme simpático, entretanto foi prejudicado por uma divulgação equivocada ao ser vendido como um novo PIRATAS DO CARIBE, quando na realidade estava mais para um LADYHAWKE do séc. XXI.

Depois de tantas idas e vindas, Gaiman finalmente alcança seu triunfo em A LENDA DE BEOWULF. E com mérito, pois o ponto forte do filme é exatamente o roteiro, bem amarrado e consistente, considerando-se que o poema original no qual se baseia possui mais buracos em sua narrativa que um queijo suíço.

Para quem não sabe, Beowulf é considerado o mais antigo poema épico a sobreviver na língua inglesa. Vindo da tradição oral, ele foi imortalizado em papel e tinta por monges, que inseriram elementos cristãos em uma lenda anglo-saxã com referências nórdicas.

Entretanto, apesar de seus problemas narrativos, havia uma força latente por trás daquele história. O mito do herói em sua essência era visto na figura do bravo, impetuoso e até mesmo arrogante Beowulf. E foi tal força que chamou a atenção de ninguém menos que J.R.R. Tolkien, autor de O SENHOR DOS ANÉIS, que não apenas traduziu o poema para o inglês moderno, como também realizou um estudo acadêmico sobre o mesmo. Não apenas isto. Tolkien também incorporou alguns elementos de BEOWULF em sua própria história. Não é mera coincidência que o reino de Hrothgar lembre Rohan, e que o conselheiro do rei evoque Grima Língua de Cobra, ou a rainha se assemelhe fisica e psicologicamente a Eówyn.

Em outras palavras, foi Tolkien que reabilitou BEOWULF, de modo que anos depois Gaiman se deparou com o texto e conseguiu enxergar a história poderosa que havia por trás daquele poema considerado enfadonho pela maioria dos estudantes americanos e ingleses que são obrigados a lê-lo. Durante anos ele acalentou a idéia de levar aquela história ás telas, até que se deparou com Roger Avary, cujo trabalho mais famoso é a co-roteirização de PULP FICTION. Avary também compartilhava o sonho de Gaiman, e, pelo resultado que encontramos na tela, pode-se dizer que a sintonia da dupla de roteiristas não poderia ser melhor.

O que encontramos em A LENDA DE BEOWULF é uma aventura adulta, empolgante, com personagens que apesar de se configurarem como arquetípico básicos do mito do herói refletem complexidade psicológica e um caráter humano pleno tanto de falhas quanto de atos nobres.

O filme trata do herói vindo do mar, Beowulf (Ray Winstone) para salvar o reino de Hrothgar (Anthony Hopkins) do temível monstro Grendel (Crispin Glover). Entretanto, mesmo matando Grendel, os problemas não cessam, pois a ameaça da mãe do monstro (Angelina Jolie) surge, em busca de vingança pela morte do filho. Para solucionar a questão, o herói acaba fazendo um pacto carnal com a mãe do monstro capaz de fazer inveja ao pacto que Fausto fez com o demônio Mefisto. Aliás, acordo bastante semelhante ao que Hrothgar fizera com a mesma criatura, anos antes, e acabara resultando em todos os problemas do reino.

Talvez a grande sacada da história esteja em dar uma dimensão mais aprofundada a uma trama que poderia render uma aventura rasa de quinta categoria (como já rendeu, haja vista a pavorosa versão estrelada por Christopher Lambert). Grendel não é um monstro cruel e consciente da barbárie de seus atos, no fim, é apenas uma criança crescida, que deseja ser deixada em paz. As motivações de sua mãe, apesar de questionáveis, são compreensíveis, pois, o que ela deseja é tanto perpetuar a si mesma e a sua espécie quase extinta quanto vingar o filho assassinado. Hrothgar é um rei que vive dos ecos de suas glórias passadas, mas, também é incapaz de assumir as responsabilidades pelos seus erros de juventude, mesmo que seus súditos paguem por eles.

E, é nesse ponto que Beowulf se diferencia de Hrothgar, pois, no fim das contas, como Gaiman e Avary compreenderam bem ao amarrar a passagem de tempo de 20 anos entre as duas partes do poema, é que não se trata da história de um herói que triunfa sobre monstros, mas de um homem que amadurece com o tempo, se tornando um rei sábio, ainda com falhas, mas capaz de buscar redenção por seus pecados, capaz de se sacrificar para zelar por aqueles que lhe são importantes.

Esse contraste é pontuado pela mesma atitude que Beowulf toma em duas batalhas diferentes. Quando jovem, contra Grendel, ele se despe de todas as armas, armaduras e roupas, com a desculpa que quer lutar com o monstro em pé de igualdade, quando o que realmente deseja, em sua empáfia, é ganhar fama e ser imortalizado. Vinte anos depois, quando o reino é invadido, Beowulf, agora rei, também se despe das armas e armadura para enfrentar um inimigo que deseja matá-lo e, assim, imortalizar-se também. Beowulf enfrenta de peito aberto o outro, que traz um machado em punho. Neste momento é que percebemos a mudança que ocorreu naquele salto temporal. Pelas palavras do rei, por seu caminhar, por sua postura, compreendemos que o jovem arrogante se tornou um homem maduro, talvez até mais nobre que as canções que cantam sobre ele. Uma mesma atitude com significados e contextos diferentes.

Entretanto, não se pode dizer que o filme seja perfeito, pois, ironicamente, é no seu chamariz, a técnica de captação de movimento que se encontra seu ponto mais fraco. É indiscutível o salto qualitativo que se deu entre BEOWULF e O EXPRESSO POLAR, no qual Robert Zemeckis utilizara a técnica anteriormente. Entretanto, ainda assim, o resultado causa estranheza e, por vezes, dificulta um envolvimento pleno com o filme. È como se com a tentativa de realismo visual causa um alerta constante no cérebro de que “tem alguma coisa errada ali”, como se o tempo todo fosse preciso se ajustar ao que se vê.

Eu, particularmente, não acho que isso seja um problema exclusivo da técnica de captação de movimento, acho que o mesmo ocorre em algumas animações feitas em rotoscopia, e mesmo em animações CGI, que buscam um realismo visual radical, como FINAL FANTASY.

No caso da captação de movimento, a impressão que se tem são que estamos vendo na tela homúnculos, ou arremedo de pessoas, com pele emborrachada e brilhante, e olhos de vidro sem vida. (E não me venham dizer que o fato de que esconderem a “barriguinha” do Ray Winstone é uma grande vantagem do filme, porque isso é desculpa esfarrapada. Se o Ray Winstone simplesmente dublasse qualquer outro filme, mesmo que não fosse de captação de movimento, a “barriga” também estaria escondida. Isso parece coisa é de quem usa o Photoshop para transformar pessoa feia em monumento grego).

Acho que talvez o problema esteja na confusão que se dá com o termo realismo, pois, na verdade, existe, uma diferença sutil entre realismo visual e realismo expressivo. BEOWULF está na vertente do realismo visual tentando transportar quase literalmente a aparência dos atores em suas contrapartes digitalizadas, o que, infelizmente, ainda não conseguiu substituir a expressividade de feições humanas verdadeiras.

Já o realismo expressivo, buscar transpor para a tela, uma veracidade das expressões emocionais, e, na animação, isso se dá em um exagero, mesmo que mínimo e sutil, nos traços dos personagens. Exemplo claro disso é a animação TOKYO GODFATHERS, apesar de 2-D, talvez seja uma das animações mais próximas de um perfeito realismo expressivo.

E, talvez por isso, em A CASA MONSTRO, por optar por um visual levemente cartoonesco, a técnica de captação de movimento tenha um resultado mais interessante e dinâmico.

Outro problema é o fato de BEOWULF ter sido feito para ser exibido em IMAX. Não um problema para o IMAX em si, muito pelo contrário, imagino que em 3-D o filme deva ser mais emocionante, entretanto, em projeções normais, seja a ser constrangedoras algumas seqüências que foram feitas pensando-se na projeção tridimensional.

Contudo, é complicado dizer se captação de movimento é, a longo prazo, algo interessante ou não para o cinema. Pode ser que ele se torne algo como a rotoscopia, usada apenas ocasionalmente, pode ser que ele se popularize e se torne efetivamente uma revolução. Lembrem-se que os primeiros filmes sonoros eram tenebrosos, os primeiros filmes em technicolor cansavam os olhos, mas ainda assim, depois de um começo canhestro, potencializaram a sétima arte quando bem empregados. Assim, só o futuro poderá dizer do verdadeiro destino da captação de movimentos.

Nota: ****

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3 Comentários »

  1. A GALÁXIA » QUANDO É GAIMAN, ELA APARECE… disse,

    3 de Dezembro de 2007 @ 01:03

    […] […]

  2. lucas disse,

    13 de Dezembro de 2007 @ 15:42

    mauito legal

  3. A GALÁXIA » 15 FINALISTAS AO OSCAR DE EFEITOS VISUAIS! disse,

    17 de Dezembro de 2007 @ 13:13

    […] A LENDA DE BEOWULF O ULTIMATO BOURNE A VOLTA DO TODO PODEROSO A BÚSSOLA DE OURO HARRY POTTER E A ORDEM DA FÊNIX EU SOU A LENDA DURO DE MATAR 4.0 A LENDA DO TESOURO PERDIDO - O LIVRO DOS SEGREDOS PIRATAS DO CARIBE - NO FIM DO MUNDO RATATOUILLE HOMEM-ARANHA 3 SUNSHINE - AMEAÇA SOLAR 300 TRANSFORMERS MEU MONSTRO DE ESTIMAÇÃO (THE WATER HORSE) […]

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