MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA, A (por Kas)

maldicao flor dourada - maldicao flor dourada
MAN CHENG JIN DAI HUANG JIN JIA, Hong Kong/China, 2006
De Zhang Yimou
Com Chow Yun-Fat , Gong Li, Jay Chou, Junjie Qin, Li Man, Liu Ye, Ni Dahong

Mesmo seguindo um ritmo e uma filosofia bem particular, não é de hoje que o cinema oriental busca inspiração em Shakespeare, um dos bastiões da cultura ocidental. O japonês Kurosawa encontrou na obra do autor fonte para dois de seus grandes filmes. De MACBETH retirou TRONO MANCHADO DE SANGUE, enquanto adaptou REI LEAR como RAN.

É a REI LEAR que o chinês Zhang Yimou retorna como fonte para A MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA, o capítulo final de sua trilogia de artes marciais (podendo virar uma tetralogia, segundo o próprio diretor). O filme entra em cartaz por aqui após ser lançado em outras capitais, mais ainda a tempo de agraciar os cinéfilos mineiros com esse belo presente de Natal.

A MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA dá seqüência ao espetáculo de cores e movimentos de HERÓI e O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS, as outras partes da trilogia iniciada talvez como resposta ao sucesso internacional de Ang Lee e seu O TIGRE E O DRAGÃO. Este apresentou ao público ocidental a cultura do Wu Xia, parte do folclore chinês que lida com histórias cheias de fantasia, amores impossíveis e guerreiros voadores. Yimou manteve estes elementos, mas os filtrou através de suas influências ocidentais, presentes em sua obra desde seus primeiros filmes. Afinal, muito de LANTERNAS VERMELHAS e OPERAÇÃO XANGAI era assumidamente espelhado nos O PODEROSO CHEFÃO de Coppola enquanto AMOR E SEDUÇÃO trazia tintas claramente noir. Yimou também flertou com o neo-realismo, em A HISTÓRIA DE QIU JU e NENHUM A MENOS, e com o melodrama clássico hollywoodiano em TEMPO DE VIVER e O CAMINHO PARA CASA, sem nunca arredar o pé de seu país de origem.

Em A MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA, Yimou retoma a parceira com sua antiga musa, Gong Li, com quem fez uma meia dúzia de longas, antes de trocá-la por outra musa, Zhang Ziyi. Gong Li faz a imperatriz Phoenix, que descobre que seu marido, o Imperador Ping (o astro Chow Yun Fat) a está envenenando lentamente com um cogumelo que eventualmente a levará a loucura. A imperatriz revela então o plano do marido para o primogênito deste e seu enteado e amante Príncipe Wan (Liu Ye), futuro herdeiro da coroa, e para o Príncipe Jai (Chou Jay), filho dela que acaba de retornar de uma temporada no exterior. Este último decide a contragosto apóia-la num golpe de estado contra o pai, previsto para o dia em que se comemorará o início do festival da flor dourada do título, o crisântemo, que simboliza a continuidade e a perpetuação. E tem ainda o terceiro filho, o caçula, que acompanha impotente a dissolução familiar. Só que nada é o que parece ser e nada ocorre como assim desejam os personagens, como é típico de uma tragédia.

E A MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA é tão claramente apoiado na tragédia do bardo inglês que acaba por ser o menos espetaculoso episódio da trilogia de Yimou. Não que faltem as lutas grandiosas que desafiam a gravidade ou os guerreiros praticamente indestrutíveis. Em um dos grandes momentos do filme um único homem enfrenta um exército de milhares, enquanto em outra seqüência, um grupo de cavaleiros tenta escapar ao ataque de ninjas assassinos. Mas o foco desta vez é nas intrigas palacianas, na desintegração familiar e nas reviravoltas do enredo. É quando toda a opulência visual típica do diretor, com cenários e figurinos (indicados ao Oscar) banhados em dourado e prateado, funciona como contraste para a decadência moral e física que se bate sobre os personagens. Toda a ação é comentada pelos serviçais que anunciam diariamente a chegada de uma nova etapa do calendário chinês, que funciona como um coro grego a prenunciar o destino do imperador, de seus três filhos e de sua esposa. Em meio ao sangrento desenlace, Yimou aponta para uma possível redenção com o auto-sacrifício de uma das peças do tabuleiro – simbolizado pela mesa que traz o ciclo da vida. Mas talvez seja tarde demais para aquela família que está destinada a deixar de existir, já que as flores que levariam a perpetuação se secaram.

Nota: *** ½

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1 Comentário »

  1. A GALÁXIA » NOVAS RESENHAS disse,

    26 de Dezembro de 2007 @ 17:35

    […] […]

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