RAINHA, A (por Kas)

THE QUEEN, Inglaterra, 2006
De Stephen Frears
Com Helen Mirren, Michael Sheen, James Cromwell
O fascínio exercido pela realeza é universal. A Família Real Britânica é um caso ainda mais especial. Até ex-colônias britânicas como a Austrália e a Nova Zelândia ainda prestam respeito à Sua Majestade, a Rainha. Não é de se admirar que o fato de uma princesa plebéia conquistar os súditos e se mostrar mais adorada pelos mesmos cause uma reação extrema por parte da própria rainha. Uma trama assim traz consigo elementos de grande drama. Melhor ainda se for real.
Este é o mote de A RAINHA, onde o cineasta inglês Stephen Frears invade a intimidade da família real britânica nos dias que se seguiram à morte da Princesa Diana. A forma como a Rainha Elizabeth II reagiu publicamente ao fato foi o estopim para uma das maiores crises recentes ocorridas na Inglaterra. É notório que Diana nunca foi realmente aceita pela família de seu ex-marido, o Príncipe Charles. As causas pra este desprezo podem tanto ser o comportamento “inadequado” da princesa ou o fato dela chamar mais a atenção que a própria rainha. É com um misto de apreensão e alívio que ela (vivida magistralmente por Helen Mirren, de ASSASSINATO EM GOSFORD PARK e EXCALIBUR) fica sabendo sobre o acidente em Paris que tirou a vida de Diana e seu então namorado, o milionário Dodi Al-Fayed. “Ela não fazia mais parte desta família”, era a desculpa da Rainha Elizabeth para ignorar os constantes apelos públicos para que a princesa receba o mesmo tratamento dado aos membros da Família Real. Mal sabia ela que esta decisão lhe causaria o maior desgaste de imagem já sofrida pela monarca desde que recebeu a coroa.
Frears e o roteirista Peter Morgan utilizam uma estratégia inteligente para abordar o assunto: a relação que se estabelece, meio que contra a vontade da Rainha, entre ela e o novo Primeiro Ministro Tony Blair (vivido pelo ótimo Michael Sheen, que já interpretara Blair num filme para TV igualmente escrito por Morgan e dirigido por Frears). Recém-saído de uma vitória esmagadora nas urnas pelo Partido Trabalhista e prometendo uma reforma geral nas instituições britânicas, Blair gozava de boa aceitação pública, e a utilizou para administrar a crise, servindo como conselheiro para a monarca, quando deveria ser exatamente o contrário. “Você é meu 10º primeiro-ministro”, desdenha a Rainha Elizabeth, incomodada com os modos nada “nobres” de Blair, pouco acostumado com os protocolos de sua posição. Esta relação, que começa com visível vantagem para a Rainha, logo se inverte. Durante o período de comoção nacional pela morte de Diana, o Príncipe Philip leva seus netos para caçar um grande cervo nas redondezas da propriedade real, um ato de máximo desprezo pelos apelos de seus súditos. À medida que a crise se aprofunda, a Rainha faz o impensável: se identifica mais com a caça que com os caçadores.
Stephen Frears já tem intimidade com a hipocrisia e os rituais que cercam a nobreza. É dele o retrato mordaz pintado sobre a mesma em LIGAÇÕES PERIGOSAS, que adaptou do romance de Chordelos de Laclos. O impacto da mídia sobre o público também foi abordado pelo cineasta em seu HERÓI POR ACIDENTE. Em A RAINHA, Frears utiliza ambas as experiências anteriores para dissecar com a verve e a secura tipicamente inglesa o embate privado entre Blair e a Rainha Elizabeth, onde as peças se alteram conforme mudam as regras do jogo. Ao final, Sua Majestade alerta profeticamente seu ministro: “Ainda chegará sua vez”. Não teve de esperar tanto para presenciar este dia.
Nota: *** ½
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A GALÁXIA » NOVAS RESENHAS! disse,
9 de Fevereiro de 2007 @ 15:03
[…] […]