ÚLTIMA NOITE, A (por Kas)

ultima noite - ultima noite

A PRARIE HOME COMPANION, EUA, 2006
De Robert Altman
Com Garrison Keillor, Woody Harrelson, Tommy Lee Jones, Kevin Kline, Lindsay Lohan, Virginia Madsen, Meryl Streep, Lily Tomlin, John C. Reilly

Logo após sair da cabine de imprensa de A ÚLTIMA NOITE, descubro que Robert Altman falecera na noite anterior, aos 81 anos. Um choque, principalmente após os vários momentos de diversão proporcionados pelo velho mestre em seu (agora) último longa. Altman afinara tão bem seu estilo, que nos iludia quanto ao seu ofício, fazendo-o parecer fácil, quando na verdade essa leveza e generosidade para com o elenco eram amostras de sua grande arte.

A ÚLTIMA NOITE não é tão bom quanto seus grandes filmes, como M.A.S.H. ou o recente ASSASSINATO EM GOSFORD PARK, mas é uma despedida carinhosa da função de entreter o público. A trama se passa nos bastidores e no palco de um programa de rádio ao vivo, durante sua última apresentação, já que a rádio fora comprada por um conglomerado texano. Durante a apresentação, sente-se a proximidade do fim, seja através da presença dos novos compradores (representados pelo frio executivo vivido por Tommy Lee Jones) ou da própria morte (Virginia Madsen, de SIDEWAYS e O MISTÉRIO DE CANDYMAN).

A melancolia do enredo é entrecortada pelos saborosos números musicais e pelas participações iluminadas do grande elenco, incluindo Meryl Streep como uma cantora country, bem distante da megera Miranda Priestley de O DIABO VESTE PRADA. Todos estão tão à vontade com a câmera solta do diretor que, apesar de sabermos muito pouco sobre o background dos personagens, não deixamos de sentir por eles e pelo estilo de vida que o próprio tempo atropelou. O único que destoa – propositadamente, já que seu personagem é o único que não vive aquele momento, prendendo-se a uma ilusão – é Kevin Kline, encarnando um detetive tornado segurança do teatro, e que se comporta como um mistura de Inspetor Closeau e Sam Spade (com o sugestivo nome de Guy Noir, é ele quem narra o filme em off).

É possível que Altman tenha escolhido essa trama pelo seu tom crepuscular. Em determinado momento, um personagem diz que “um ancião morrer não é nenhuma tragédia”. Poderia estar falando de si mesmo. Pois o que fica claro para o espectador é que a verdadeira tragédia está em toda uma tradição e modo de vida sucumbir ao peso do capitalismo. Curiosamente, na vida real aconteceu algo similar: a seguradora só topou bancar o filme deste octogenário se este tivesse um estepe, no caso, o cineasta Paul Thomas Anderson (BOOGIE NIGHTS, MAGNOLIA), a quem é dirigido um agradecimento nos créditos finais. Fã e pupilo declarado de Altman, Anderson teve realmente de assumir as filmagens durante alguns dias, quando Altman foi hospitalizado. Arte e vida se misturam. Mas A ÚLTIMA NOITE não precisa de intrigas de bastidores. É charmoso e caloroso por si só, como um último aceno para a platéia.

NOTA: ***

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2 Comentários »

  1. A GALÁXIA » NOVAS RESENHAS disse,

    27 de Novembro de 2006 @ 13:34

    […] O último fim de semana foi puxado! Tantas estréias que nem tivemos tempo de acompanhar todas! Mas pelo menos foi um bom fim de semana. Começamos com HAPPY FEET: O PINGÜIM do fantástico George Miller, passamos por A ÚLTIMA NOITE do recém-finado Robert Altman (tanto picareta para morrer e morre logo um dos feras) e o francês PINTAR E FAZER AMOR. Clique nos títulos para acessar as resenhas. […]

  2. A GALÁXIA » OS MELHORES DE 2006 - FILM COMMENT / INDIEWIRE disse,

    21 de Dezembro de 2006 @ 23:01

    […] 18. A ÚLTIMA NOITE (Robert Altman, EUA) […]

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