DESEJO E REPARAÇÃO (por Katchiannya)

De Joe Wright
Com Keira Knightley, James McAvoy, Vanessa Redgrave, Saoirse Ronan, Romola Garai, Brenda Blethyn
Imagino o quanto deve ter sido difícil para o roteirista Christopher Hampton reduzir as 130 mil palavras do denso e complexo romance de Ian McEwan às 20 mil palavras contidas no roteiro sem comprometer a essência da história. Na realidade, acredito que compreendo exatamente como ele se sentiu, pois fiquei um bom tempo na frente do monitor tentando imaginar como fazer algo semelhante com esta resenha. Como eu poderia exprimir em poucas linhas DESEJO E REPARAÇÃO de modo a fazer jus ao filme?
Parafraseando Hampton - e indiretamente Hitchcock também - é muito mais fácil resenhar um filme ruim que um excelente filme.
Confesso que há muito um filme não me causava um impacto tamanho como DESEJO E REPARAÇÃO causou em mim a ponto de não conseguir me descolar do filme mesmo após as luzes da sala de projeção terem se acendido e eu ter m encaminhado de volta para minha vida cotidiana. O filme se impregnou em mim a ponto de ainda senti-lo enquanto escrevo esta resenha.
O que, para mim, seja ser um pouco complicado, pois, sempre me esforcei em não ser passional ao analisar um filme, me atendo principalmente aos aspectos técnicos da obra, contudo, no caso de DESEJO E REPARAÇÃO, a tarefa se mostra quase impossível, portanto, já peço desculpas se as minhas palavras parecerem desnecessariamente apaixonadas.
Assim como no trabalho anterior de Joe Wright, ORGULHO E PRECONCEITO, é notável o esmero na cenografia, nos figurinos, na fotografia e na ambientação da história, que não traz apenas maior verossimilhança à história, mas funcionam como um recurso sólido o suficiente para que o espectador se envolva plenamente com o enredo.
Em 1935, em um dia quente de verão, a família Tallis se reúne em sua antiga e imponente mansão no interior da Inglaterra. Briony (Saoirse Ronan), a caçula da família, um precoce e talentosa escritora de 13 anos, acaba de terminar sua primeira peça, entretanto um emaranhado de acontecimentos erroneamente interpretados por ela, levam não apenas ao cancelamento da peça, mas a eventos que vão repercutir por toda a vida daquela família, especialmente na da própria Briony, e na de sua irmã mais velha Cecília (Keira Knightley) e Robbie Turner (James McAvoy), filho da governanta. Cecília e Robbie cresceram juntos e até mesmo estudaram juntos, uma vez que a família Tallis custeou os estudos do rapaz em Cambridge, entretanto, os dois percebem que nutrem sentimentos muito mais fortes que amor fraternal ou amizade. Contudo, Briony se vê também apaixonada pelo rapaz.
Embora o título em português DESEJO E REPARAÇÃO (no original consta apenas o segundo) tenha sido uma maneira de vincular este filme ao trabalho anterior de Wright, ele não chega a ser completamente equivocado, pois são os desejos reprimidos e confusamente expressos de todos os envolvidos ali, não apenas do trio de protagonista, que desencadeiam a tragédia. Desejo que por vezes leva a atos de imensurável mesquinhez e egoísmo.
Briony acaba acusando Robbie de um crime que não cometeu e tenta, durante grande parte da vida, encontrar a reparação pelo erro que cometeu. Um erro tão grande, uma mentira (por falta de uma palavra mais forte) tão hedionda que me pergunto se realmente haveria uma forma de reparar aquilo?
De certa forma, DESEJO E REPARAÇÃO trata do poder da palavra tanto como algo que destrói quanto como algo poderia levar a uma reconstrução da realidade. Não por acaso, a escrita está presente por todo o filme e passa a ser, em alguns pontos, a linha que une os três momentos distintos do filme. Ela não se mostra apenas na personagem de Briony, mas nas legendas que indicam os locais e as datas, simulando letras da máquina de escrever impressas uma a uma na tela, como genialmente na trilha sonora, que é permeada pelo som das teclas da maquina de escrever especialmente nos momentos de maior tensão e de maior importância para a trama.
Outro ponto de destaque são as interpretações fortes e seguras dos atores principais, merecidamente indicados ao Globo de Ouro, especialmente de Saoirse Ronan que faz Briony aos 13 anos. De fato, o modo como ela, e as outras duas atrizes que interpretam Briony aos 18 anos (Romola Garai) e na velhice (Vanessa Redgrave) dão uma continuidade não apenas visual, mas também psicológica, à personagem, nos convence de que realmente são a mesma pessoa em momentos distintos de sua vida.
Enfim, tentar resumir ou explicar demais DESEJO E REPARAÇÃO é esvaziar desnecessariamente a preciosidade que o filme possui.
Nota: *****
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1 Comentário »
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ana disse,
17 de Janeiro de 2008 @ 07:24
Fiquei impressionada com a sua critica! Parabens!
To louca pra assisti Desejo e Reparação, mas ainda nao estreiou na minha cidade, e esse eu quero ver no cinema! Todas as pessoas que eu sei que viram falaram muito bem, não é atoa que levou o Globo de Ouro!
bjos