ESTRELA SOLITÁRIA (por Kas)

estrela solitaria - estrela solitaria

DON’T COME KNOCKING, EUA/Alemanha, 2005
De Wim Wenders
Com Sam Shepard, Jessica Lange, Tim Roth, Sarah Polley

ESTRELA SOLITÁRIA marca a nova e aguardada parceria entre o cineasta Wim Wenders e o dramaturgo e roteirista Sam Shepard, a dupla responsável pelo maior sucesso da carreira de ambos, o maravilhoso PARIS, TEXAS. É, portanto, normal esperar muito dessa nova colaboração, ainda mais acrescida do “ator” Sam Shepard, cujos traços de galã da Marlboro com a angústia de um Ernest Hemingway caem como uma luva para o papel de Howard Spence, um ator de faroestes que abandona subitamente o set de seu último filme. Esta persona de Shepard, aproveitada anteriormente com brilhantismo pelo diretor Philip Kaufman em OS ELEITOS, é retomada por Wenders que faz rendê-la na tela, destacando cada ruga do ator, marcas do tempo que se passa e do sucesso que ele um dia usufruiu.

Spence não parte especificamente atrás de um suposto filho que teria tido com uma garçonete (Jessica Lange, esposa de Shepard na vida real) trinta anos atrás. Quer antes de tudo abandonar o mundo de plástico no qual se isolou desde que virou astro de cinema e busca a autenticidade perdida nas relações e no ambiente. É simbólico que alguns de seus primeiros atos sejam trocar tanto seu figurino pela roupa de um autêntico cowboy quanto seus cartões de crédito por dinheiro de verdade.

Mas alcançar a autenticidade não será tão fácil para Spence numa América que já a abandonou faz tempo. No lugar, encontra as luzes fulgurantes dos cassinos e dos jogos de fliperama. Encontrar o suposto filho passa a ser meta para Spence, nem que seja pela falta de outra qualquer.

Também o cineasta Wenders está em busca da América mítica dos antigos westerns – a seqüência de abertura é prova disso – mas esta só existe hoje, se é que existiu algum dia, apenas no cinema. “Prefiro os filmes”, diz uma personagem. “A quê?”, pergunta outra, que responde, “À vida real”. A fascinação por esta América mítica é característica recorrente na obra de Wenders, assim como o deslocamento espacial, daí o road movie ser um de seus sub-gêneros favoritos. É pena que ESTRELA SOLITÁRIA não atinja o engajamento emocional pretendido pelos realizadores ou esperado pelo público ansioso por um novo PARIS, TEXAS. A desnecessária subtrama policial, uma obsessão do diretor (vide O ESTADO DAS COISAS, ATÉ O FIM DO MUNDO, TÃO LONGE, TÃO PERTO e O FIM DA VIOLÊNCIA, por exemplo) que nem sempre este consegue inserir devidamente em seus argumentos, é representada aqui pelo investigador do seguro vivido por Tim Roth que sai atrás do astro desertor. O cuidado com o visual e com a trilha sonora, outras marcas do cinema de Wenders, está presente, mas não substitui a autêntica emoção.

Nota: **1/2

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