* INDIANA JONES E A VOLTA DAS GRANDES AVENTURAS

indy reino caveira cristal - indy reino caveira cristal

A grande atração do Festival de Cannes desse ano aconteceu ontem, com a primeira exibição mundial para público e crítica de INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL, que marca o fim da aposentadoria de um dos maiores heróis do cinema, após quase 20 anos desde que pendurou o chicote.

Tudo começou no verão de 1977. Enquanto aguardava as primeiras informações sobre a renda de seu STAR WARS, que estreava naquele fim de semana, George Lucas buscou refúgio em uma praia ao lado do melhor amigo Steven Spielberg. Quando descobriu que sua saga espacial batera todos os recordes, Lucas voltou a se tranqüilizar e perguntou a Spielberg o que ele faria a seguir. Spielberg confessou ao amigo que sempre sonhara em dirigir um filme de 007 (na época, apenas cineastas britânicos respondiam pela série). Tenho algo melhor, respondeu Lucas. E contou a Spielberg uma idéia que tivera alguns anos antes, sobre um arqueólogo que enfrentava diversas aventuras enquanto procurava relíquias pelo mundo. Seria uma homenagem às antigas aventuras seriadas, com capítulos semanais exibidos antes dos longas nos cinemas, da mesma forma que STAR WARS remete às fantasias científicas de Buck Rogers e Flash Gordon. Lucas convidara antes o colega Philip Kaufman (que posteriormente realizaria filmes importantes como OS ELEITOS e A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER) para desenvolver o projeto. Foi Kaufman que surgiu com a idéia de que o herói deveria procurar pela Arca da Aliança, onde Moisés teria guardado as tábuas com os Dez Mandamentos. Após desenvolverem um argumento, Kaufman debandou para escrever JOSEY WALES - O FORA DA LEI para Clint Eastwood e deixou a vaga livre.

Spielberg imediatamente amou a idéia, com exceção de um detalhe. Num primeiro momento, o herói se chamava Indiana Smith. Spielberg sugeriu uma mudança de nome. Que tal então Indiana Jones, perguntou Lucas. E estava criada a lenda.

Mas nem a menção dos nomes dos realizadores de TUBARÃO e STAR WARS juntos em um mesmo projeto fez com que os estúdios caíssem de amores por uma aventura anacrônica, passada nos anos 30. Por fim, a Paramount decidiu bancar a empreitada.

Antes de embarcar à procura da arca perdida, outra busca aguardava os realizadores, a do ator que portaria o chapéu e o chicote. Spielberg de cara sugeriu Harrison Ford, que despontara para o estrelato como Han Solo e como o piloto arrogante de LOUCURAS DE VERÃO, também de Lucas. Não quero que Ford seja meu De Niro, teria dito Lucas, citando a famosa parceria entre De Niro e Scorsese. Vários atores foram então considerados, como Jeff Bridges e Tim Matheson, até que a escolha caiu sobre Tom Selleck. Só que um compromisso prévio com a série de TV MAGNUM impediu que Selleck assumisse o papel. Sem muitas opções, eis que sobrou para Harrison Ford trazer sua bagagem de charme, carisma e ironia para o herói. E raramente houve uma melhor combinação entre ator e personagem em toda a história do cinema. Ford e Indy são como Gable e Rhett Butler, Bogart e Rick Blane ou Sam Spade ou Philip Marlowe, Heston e Moisés ou Ben-Hur, Reeve e Superman, Sellers e Closeau. Impossível desassociar ator e personagem. Se alguém (viu, Georgie?) pensa em continuar a série com Shia LaBeouf (um ator que eu curto bem), prepare-se para queimar no fogo do inferno.

indy cacadores - indy cacadores

Lançado no verão de 1981, OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA logo virou a sensação da temporada e a maior bilheteria daquele ano. O cartaz do filme estampava A volta das grandes aventuras e o filme cumpria o prometido. Até a Academia se rendeu ao apelo do aventureiro, cedendo oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e direção, algo raro para filmes de aventura e fantasia. Mas desde a primeira seqüência, passada em um templo no Peru e culminando em uma fuga espetacular com Indiana perseguido por uma pedra gigante, percebe-se que estamos vendo algo especial. Realmente, Spielberg e Lucas criaram o supra-sumo do entretenimento, elevando-o à condição de arte. São poucos filmes realmente perfeitos em tudo e OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA é um deles. O roteiro, desenvolvido por Lawrence Kasdan (que estava em uma época iluminada, quando escreveu também O IMPÉRIO CONTRA-ATACA e O RETORNO DE JEDI, além de dirigir CORPOS ARDENTES, O REENCONTRO e SILVERADO) é brilhante, injetando humor e senso de ameaça a todo instante, sem deixar de lado os personagens carismáticos, da mocinha aos vilões nazistas. Parte do fascínio de Indiana Jones está no fato dele ser ao mesmo tempo um acadêmico e um aventureiro que não teme sujar as mãos. Jones é por vezes imoral, obcecado, sem muito tato com as mulheres. Nem pensa com muita antecedência, como mostra uma das melhores piadas do trailer do novo filme. Ou seja, é humano como todos nós do lado de cá da tela. Mas faz o possível pra dar conta do recado.

O figurino do herói, de jaqueta de couro e chapéu fedora, inspirado nos trajes de Humphrey Bogart em TÓQUIO JOE e Charlton Heston em O SEGREDO DOS INCAS, é icônico. Lucas contribuiu também com a carpintaria visual de sua Industrial Light & Magic, que recorreu a todo seu repertório de truques de forma a dar forma ao poder de Deus, na famosa seqüência final onde a arca é finalmente violada. Uma sequência ainda fabulosa e assustadora.

Já a direção de Spielberg é de uma precisão milimétrica. Numa época em que as exibições de filmes na TV aberta ganhavam cada vez mais relevância financeira, os cineastas amargavam o desgosto de terem suas obras interrompidas diversas vezes pelos inevitáveis comerciais, que quebravam com a construção dramática dos filmes, feitos para serem vistos de uma sentada só. Spielberg, espertamente, percebeu na própria natureza de CAÇADORES a chance de atenuar o problema. O diretor construiu sua narrativa baseada em mini-clímax que surgiam de tempos em tempos, servindo como deixa para a inclusão de blocos comerciais e permitindo com que o espectador conseguisse retomar logo o fio da meada. Algo que começou como uma experiência narrativa tornou-se uma regra seguida à risca por Hollywood até hoje.

Outra sacada fantástica e extremamente ousada por parte de Spielberg foi deixar o herói completamente sem ação exatamente no clímax. Atado, junto com Marion a um pilar, Indiana não faz mais do que fechar os olhos e deixar os vilões se condenarem por conta própria. O sujeito passa todo filme a mil por hora, batendo e apanhando, mas na hora de acertar as contas de uma vez por todas com os nazistas, aí Indy literalmente entrega pra Deus. Repare ainda na homenagem à CIDADÃO KANE no plano final.

E por fim, temos a magnífica partitura musical de John Williams. A parceria de Williams e Spielberg é um caso a parte. Juntamente com as de Nino Rota e Fellini e Bernard Herrmann e Hitchcock, não existe colaboração entre compositor e diretor mais bem sucedida que esta. Com exceção de A COR PÚRPURA, com trilha composta por Quincy Jones, Williams musicou todos os demais longas cinematográficos de Spielberg. São 23 filmes em 35 anos de colaboração. O assobiável “Raiders March”, repetido nos longas posteriores, é dos pontos altos desta parceria.

Se houve um problema resultante de tanto sucesso, foi o fato de CAÇADORES ter estabelecido um padrão alto demais, o qual as demais seqüências (desde o início, a série foi concebida como uma trilogia) deveriam igualar, sob a pena de decepcionarem.

indy templo perdicao - indy templo perdicao

Felizmente, os realizadores partiram para um caminho bem diverso no filme seguinte, INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO (1984). É um longa ainda mais frenético e bem mais sombrio que o antecessor, reflexo talvez da má fase na vida pessoal que Lucas passava, marcada por um doloroso divórcio. O que explicaria inclusive o tratamento dado à única figura feminina do filme, a histérica e superficial cantora de cabaré Willie Scott (vivida por Kate Capshaw, futura Sra. Spielberg), que renderia aos realizadores a acusação de misoginia. Mas foi a violência, inclusive contra crianças, e o carregado tom sobrenatural que provocaram verdadeira comoção entre os pais. Noticias de crianças saindo aos prantos do cinema começaram a invadir a mídia. Por fim, por sugestão do próprio Spielberg, foi criada uma nova faixa de classificação etária, a PG-13, que proíbe a presença de menores de 13 anos no cinema sem a presença do responsável.

Independente da polêmica, TEMPLO DA PERDIÇÃO é mais uma aula de cinema puro ministrada por Spielberg e companhia. Se cinema é ação e movimento, como pregavam Howard Hawks e John Ford, então não existe exemplo melhor da arte. TEMPLO DA PERDIÇÃO é de literalmente tirar o fôlego do início ao fim, encontrando tempo ainda para homenagear os antigos musicais (na primorosa abertura ao som de Cole Porter) às comédias românticas de outrora, no relacionamento de amor e ódio entre Indy e Willie. Nem a presença do desnecessário parceiro mirim Short Round atrapalha a narrativa primorosa. Indiana Jones vai ao inferno, nas palavras do próprio George Lucas. E para os fãs de filmes de horror, é bom saber que um herói como ele (e os realizadores da série) tem culhão pra isso.

indy ultima cruzada - indy ultima cruzada

Ainda assim, na aventura seguinte Spielberg e Lucas decidiram por retomar o tom do primeiro filme. INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA é o mais emocional dos filmes da série e o que melhor explora o histórico do personagem principal, ao introduzir a figura do pai do herói. A sacada de mestre foi convidar Sean Connery para interpretar o Dr. Henry Jones. Finalmente Spielberg pode dirigir, mesmo indiretamente, o 007 que tanto sonhou. Connery trouxe nobreza e credibilidade para o papel, além de uma bem-vinda química com Harrison Ford, a quem passa todo filme chamando de Junior, para desespero do herói. Novamente, temos os nazistas como vilões (o próprio Hitler protagoniza a melhor cena do filme) e um artefato sagrado como objeto de desejo. No caso, o Santo Graal, o cálice usado por Jesus na última ceia e perseguido pelo Rei Arthur e os cavaleiros da távola redonda, capaz de dar vida eterna a aqueles que nele beber.

A ÚLTIMA CRUZADA, lançado em 1989, fechou a trilogia com uma nota acima. Mesmo sem o acabamento técnico refinado dos filmes anteriores (o filme parece feito de forma apressada, principalmente os efeitos) e o clímax menos mágico e grandioso, tem uma série de seqüências de antologia, como a que abre o filme, mostrando Indiana em sua adolescência (na pele do precocemente falecido River Phoenix) e a que fecha a aventura, com o herói e seus companheiros cavalgando em direção ao pôr do sol. De onde se espera que ele retornará com a devida glória com o lançamento da nova aventura, a partir desta quinta nos cinemas em todo o mundo.

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2 Comentários »

  1. A GALÁXIA » INDIANA DO CHICOTE AO CHAPÉU! disse,

    19 de Maio de 2008 @ 12:59

    […] […]

  2. A GALÁXIA » Blog Archive » INDIANA DO CHICOTE AO CHAPÉU! disse,

    30 de Maio de 2008 @ 00:19

    […] INDIANA DO CHICOTE AO CHAPÉU! Se você é uma daquelas pessoas que pensam “ah, Indiana Jones já tá ultrapassado” ou “legal mesmo são os filmes do Michael Bay”, eu digo: envergonhe-se! Arrependa-se! E se me encontrar na rua, prepare-se para ter a boca lavada com sabão. INDIANA JONES E O TEMPLO DA CAVEIRA DE CRISTAL chega às telas mundiais essa semana e merece respeito! Para aproveitar a ocasião, o Kas fez um mixo de histórico com análise cinematográfica de toda a série, para que você possa ir aos cinemas com a devida reverência conferir a quarta aventura do arqueólogo mais bacana de todos os tempos. Clique aqui! […]

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