* JOGOS DO PODER (por Kas)

jogos poder - jogos poder
CHARLIE WILSON’S WAR, EUA, 2007
De Mike Nichols
Com Tom Hanks, Julia Roberts, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Emily Blunt, Ned Beatty

Hollywood sabe como poucos transitar entre a crítica ferrenha ao american way of life e a restauração dos mesmos valores. Séries e filmes atuais ajudam a desmoronar e, ao mesmo tempo, restituir o mito da América livre, do paradigma da justiça e liberdade. Para cada DEADWOOD, que discute criticamente a violência e o preconceito como um dos pilares da nação, temos um 24 HORAS, que transformam estes mesmos elementos nas forças propulsoras de defesa dos EUA contra a ameaça estrangeira.

Se situar no fio da navalha é o que faz JOGOS DO PODER, o novo filme de Mike Nichols. Nichols não é estranho à sátira política, gênero no qual este novo filme se enquadra. O cineasta realizou, no início dos anos 70, o demolidor ARDIL 22, que abordava a guerra de um ponto de vista cáustico, como o fizera alguns anos antes o M.A.S.H. de Robert Altman. O belicismo retorna no centro da trama de JOGOS DO PODER. O filme conta como um congressista do Texas chegado em sexo e drogas, Charlie Wilson (o boa praça Tom Hanks, perfeito), se torna o principal articulador da derrota soviética no Afeganistão no final dos anos 80. A primeira cena traz Wilson, postado em frente à bandeira americana tal qual a memorável cena de abertura de PATTON - REBELDE OU HERÓI?, recebendo uma homenagem da divisão de operações clandestinas da CIA por ter sido o principal responsável pelo desfacelamento da União Soviética, que sai combalida do conflito no Afeganistão. Corta para dez anos antes, no final dos anos 1970. Wilson está acompanhado de um conhecido e de três strippers numa jacuzzi, numa festa regada a whisky e cocaína. Da jacuzzi, Wilson vê uma reportagem na TV sobre a situação do Afeganistão pós-invasão soviética. Não se sabe se movido por patriotismo ou por vaidade, Charlie Wilson utiliza sua posição estratégica no comitê de orçamento do congresso para dobrar a verba da CIA na região.

Paralelamente, temos a designação do veterano agente da CIA Gust Avrakotos (Philip Seymour Hoffman, numa atuação extraordinária indicada ao Oscar) para a divisão do Afeganistão. Irascível e cínico, Avrakotos irá contrapor com perfeição a simpatia e os modos políticos de Charlie Wilson. O primeiro encontro dos dois no gabinete de Wilson é hilário e serve para mostrar que, a despeito das diferenças, um só tem a ganhar com a ajuda do outro. A terceira peça da articulação surge na pele da milionária socialite texana (e amante de Wilson) Joanne Herring (Julia Roberts, de volta ao cinema após sua propagada gravidez). É ela que promove o encontro de Wilson com o presidente do Paquistão, um dos maiores interessados na crise do Afeganistão.

Mike Nichols e o roteirista Aaron Sorkin, ele mesmo um craque na sátira política e nos bastidores do poder graças aos muitos anos dedicados a sua premiada série de TV THE WEST WING, equilibram com perfeição toda a manobra política e o humor virulento. É a confirmação da boa fase de Nichols, um diretor importante de tramas adultas, desde sua estréia nos anos 60 com o perturbador QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF? e o icônico A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (pelo qual recebeu o Oscar de direção). Após passar um bom tempo servindo apenas como diretor contratado de projetos impessoais como UMA SECRETÁRIA DE FUTURO, LOBO e a refilmagem de A GAIOLA DAS LOUCAS, Nichols retoma a veia sardônica de outrora com este JOGOS DO PODER, que dá seqüência aos bem sucedidos CLOSER - PERTO DEMAIS e a minissérie da HBO ANGELS IN AMERICA. Realmente, poucos diretores dominam tão bem o timing de comédia quanto Nichols. Mas aqui, o patriotismo latente ameaça a todo instante minar a corrosiva sátira e o humor impagável com o qual Nichols traça um paralelo entre a iniciativa de Charlie Wilson e os efeitos colaterais da posterior intervenção dos EUA no Oriente Médio. Ao ver um senador discursar para refugiados afegãos sobre estar agindo sob a benção divina, o próprio Wilson observa, meu maior medo é Deus ficar de ambos os lados.

Nota: *** ½

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