* JOGOS DO PODER (por tHEbLoB)

De Mike Nichols
Com Tom Hanks, Julia Roberts, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Emily Blunt, Ned Beatty
Durante a década de 80, antes de Osama Bin Laden e antes do Talibã, o Afeganistão era o epicentro da guerra fria entre a democracia e o comunismo. Tudo começou no final do ano de 1979, quando tropas soviéticas invadiram o país em apoio ao regime marxista afegão que lutava contra insurgentes denominados mujahidin. Após dez anos de conflito, em fevereiro de 1989, os últimos soldados soviéticos retiraram-se derrotados do território afegão e, meses depois, com a queda do muro de Berlim, o comunismo e a guerra fria chegaram ao fim. Naquele momento não era perceptível para nós, pobres mortais, o nascimento de um intenso sentimento de revolta e radicalismo religioso na região, que atingiria seu ápice em 11 de setembro de 2001.
JOGOS DO PODER tenta interpretar esses eventos que transformaram o mundo sob a perspectiva de um deputado norte-americano chamado Charlie Wilson (Tom Hanks), que com uma “pequena” ajuda conduziu a maior operação clandestina da história do governo americano para armar os rebeldes afegãos que eram massacrados pelas forças soviéticas.
Entretanto Charlie Wilson não é o seu típico herói americano. A primeira vez que o encontramos ele está dentro de uma jacuzzi com duas strippers, bebendo muito whisky ao som de Barry White numa festa de embalo que parece produzida por Hugh Hefner. Nesse ambiente acolhedor nosso herói e deputado conversa com um sujeito e uma loura que pretendem produzir um piloto para a televisão e precisam de uma bagatela de 29 mil dólares. Ele, bem humorado, desconversa e faz brincadeiras. Em um determinado momento olha para além da jacuzzi e é surpreendido por uma imagem forte que vinha da TV. Nada menos que o âncora do noticiário de maior audiência dos Estados Unidos transmitia com um imenso turbante e rodeado por rebeldes afegãos diretamente da zona de conflito. Charlie fica intrigado com aquela cena, despertando sua curiosidade e a necessidade de entender o que está ocorrendo do outro lado do mundo.
Logo de cara o diretor Mike Nichols, de CLOSER e A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM, e o roteirista Aaron Sorkin, de THE WEST WING e QUESTÃO DE HONRA, dão as cartas ao mesclar o tom sério que o tema merece com a irreverência e leveza da personalidade festeira do deputado. Estimulado pela bela e rica herdeira texana Joanne Herring (Julia Roberts), uma ativista da causa afegã e especialista em organizar festas beneficentes, Charlie decide por diminuir o ritmo social de sua vida e fazer alguma coisa. Usando de sua posição previlegiada no congresso e conseguindo muita ajuda de um funcionário encostado da CIA chamado Gust Avrakotos (Philip Seymour Hoffman), Charlie monta uma complicada rede de poder multinacional que consegue levantar um bilhão de dólares para comprar armamento para os rebeldes afegãos.
O filme mostra que por trás dos seus defeitos e mau exemplo de comportamento, Charlie possui um sentimento genuíno de servir a causa pública. Acima de tudo ele não esconde que tem consciência de suas falhas, o que o torna mais humano. Nosso herói, digno representante do american way of life, na sua missão de ajudar os fracos e oprimidos afegãos conseguiu, de quebra, acabar com o comunismo.
Mais interessante do que toda esta grandiosidade histórica que mudou o mundo é a relação formada entre Charlie e Gust. Com ótimas atuações de Hanks e Hoffman, há momentos hilários em que o perfeito timing dos atores e da direção nos faz esquecer que estamos assistindo uma história real, que aconteceu dentro do Congresso da nação mais poderosa do mundo, teve a participação da CIA e ocorreu em plena guerra fria. Viajando ao redor do mundo, articulando com israelenses , paquistaneses, egípcios em favor dos rebeldes afegãos tornam essas duas figuras muito próximas, proporcionando ótimos momentos de humor com diálogos rápidos, sarcásticos e políticos com uma qualidade que há tempos não se via em Hollywood.
Politicamente o filme indica, mesmo que sutilmente, erros cometidos pelos Estados Unidos em abandonar o Afeganistão sem uma proposta de recuperação do país que ficou totalmente destruído após 10 anos de guerra. Dizem que uma primeira versão do roteiro teria sido suavizada a pedidos dos envolvidos no filme, principalmente pela milionária texana Jonna Herring que não aprovou a insinuação de que as armas que ajudou a comprar para a defesa do Afeganistão contra os soviéticos acabaram nas mãos do Talibã anos depois. O que não impede o espectador de tirar suas próprias conclusões ao final do filme.
Talvez Aaron Sorkin, ao ser forçado a amenizar a história e a não ser muito incisivo, desabafe uma vez mais, mesmo que subliminarmente e sem seu “porta –voz” Jack Nicholson, a todos aqueles que não querem reconhecer e enfrentar a verdade dos erros de estratégia cometidos pelo governo americano em relação ao Afeganistão, na forma de sua célebre frase: YOU CAN’T HANDLE THE TRUTH!
Nota: *** ½
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