* JUÍZO (por Kas)

juizo - juizo
Brasil, 2007
De Maria Augusta Ramos

Uma tela preta avisa logo no início da projeção que a lei brasileira proíbe identificar os rostos de menores infratores, e por isso, as faces que veremos a seguir são de outros jovens que substituem os verdadeiros criminosos. Ou seja, de atores, ainda que amadores, que vivem em condições sociais similares e que já possuem experiência com os rituais apresentados em JUÍZO. Em seu novo filme, a cineasta Maria Augusta Ramos dá prosseguimento a seu registro das várias facetas do poder judiciário brasileiro, iniciado com o poderoso JUSTIÇA (2004). A abordagem formal permanece a mesma: assistimos a audiências onde são expostos os crimes dos quais os réus são acusados e a contrapartida dos juízes que conduzem os julgamentos.

No caso de JUÍZO, o foco está no juizado de menores do Rio, mais precisamente nas audiências da 2ª Vara da Justiça do Rio de Janeiro e na convivência com os jovens infratores no Instituto Padre Severino, onde são alojados durante a pena. A “personagem principal” de JUÍZO é a Juíza Luciana Fiala, de quem é função interrogar os jovens e decidir a pena. É com sua estampa de insatisfação e descrença que nós nos identificamos. Como quando esta confronta um jovem que assassinou o pai a facadas, enquanto este dormia: O resto da tua vida você vai se lembrar que esfaqueou o teu pai. Se você devia efetivamente fazer isso ou não, eu vou deixar com a tua consciência. E isso, por mais que você se sinta aliviado de não ter mais alguém te surrando, não tem como apagar, diz ela.

O que mais impressiona no relato de JUÍZO é que a maior parte das vezes os próprios infratores, todos menores de 18 anos, não entendem o que se passa ali, a não ser quando a Juíza coloca de forma que lhes é familiar, como quando pede para que um deles observe o desespero do pai que acompanha o julgamento: Gosta de ver teu pai assim?

Mas o que se percebe é o abismo que existe entre os códigos e as linguagens e a impossibilidade do sistema atual de dar conta da reeducação e da reinserção do jovem na sociedade. Os infratores que vemos na tela podem até não ser os verdadeiros criminosos. Mas, segundo JUÍZO, eles bem que poderiam estar no lugar deles também na vida real.

Nota: ***

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1 Comentário »

  1. A GALÁXIA » DYLAN VS BEATLES… NA JUSTIÇA? disse,

    31 de Março de 2008 @ 11:25

    […] Não, não é um novo filme de monstros (apesar de que a imagem de gigantescos bonecos de borracha de astros do rock esmagando a cidade de Tóquio me faz até suspirar). Também não é um western sobre como um único homem enfrenta uma quadrilha de estrangeiros de cabelo de penico. Não é nem mesmo um drama de tribunal com Jack Nicholson gritando “you can’t handle the truth!“. Após incompreensível demora, chegam finalmente às telas dois dos mais esperados filmes do ano passado. O primeiro, ACROSS THE UNIVERSE, está sob a lupa do Kas e conta com belos intérpretes cantando músicas dos Beatles, além de ser o primeiro filme de Julie Taymor após o elogiado FRIDA. O outro é NÃO ESTOU LÁ, uma semi-biografia de um dos deuses do folk, rock, pop music, Bob Dylan, que levou tHEbLoB aos cinemas. E se depois disso tudo ainda sobrar pedra sobre pedra, confira a resenha de Kas para JUÍZO, novo filme de Maria Augusta Lemos que coloca sob as lentes as audiências da 2ª Vara da Justiça do Rio de Janeiro. Clique nos posters e confira você mesmo! […]

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