MIAMI VICE (por Kas)

miami vice - miami vice

MIAMI VICE, EUA, 2006
De Michael Mann
Com Colin Farrell, Jamie Foxx, Gong Li, Naomi Harris, John Ortiz

Foi-se o visual brega, os ternos coloridos e os sapatos de mocassim sem meia. De resquício dos anos 80 sobrou apenas o mullet de Colin Farrell, mas no todo seu look está mais para Village People que para Don Johnson. Este é o novo MIAMI VICE, que estréia hoje em todo o Brasil. Não se trata de uma “reimaginação” da série que tomou de assalto a TV americana em 1984 com suas tramas adultas sobre agentes infiltrados tentando acabar com o tráfico de drogas. A versão cinematográfica se livra dos excessos visuais que dataram o seriado, mas o tema permanece o mesmo e a principal mente criativa também, no caso o cineasta Michael Mann, que foi produtor da série de TV e assume também as rédeas desta portentosa versão cinematográfica.

No longa, os detetives da polícia de Miami Sonny Crockett (Farrell, de O NOVO MUNDO) e Ricardo Tubbs (Jamie Foxx, esbanjando carisma) pretendem desbaratar uma poderosa conexão do tráfico entre a Colômbia e a Flórida. Para tanto, disfarçam-se de “transportadores” e vendem seus serviços para o barão das drogas José Yero (John Ortiz), só para descobrirem que ele é apenas uma peça menor no esquema das coisas, que envolve também a bela Isabella (a musa chinesa Gong Li, de LANTERNAS VERMELHAS).

Mann é conhecido por ser um osso duro de roer dentro da indústria e isso transparece da melhor forma possível no resultado final. Desde sua estréia na direção de longas com RUAS DE VIOLÊNCIA (1981), este veterano da TV construiu uma das obras mais “machas” (no bom sentido de transbordar testosterona, mas com sensibilidade) do cinema americano contemporâneo, seja encenando filmes de horror A FORTALEZA INFERNAL, 1983), romances históricos (O ÚLTIMO DOS MOICANOS, 1992), cinebiografias (ALI, 2001), filmes denúncia (O INFORMANTE, 1999) ou, seu gênero favorito, thrillers policiais (CAÇADOR DE ASSASSINOS, FOGO CONTRA FOGO, COLATERAL). É neste último grupo que MIAMI VICE se inscreve, e com honra. A visão de Mann para as aventuras de Crockett e Tubbs é suja e violenta como o cinema policial popularizado na década de 70, mas não revisionista. Seus protagonistas são barra pesada quando convém, extremamente profissionais e leais mas também românticos. Acreditam que seus esforços individuais fazem diferença num mundo corrompido como o das drogas. Apaixonam-se por mulheres duronas, a quem querem proteger a todo custo. Enfim, heróis à moda antiga, homens de verdade que sobrevivem assumindo identidades alheias e convivendo com a tentação constante de passar para o outro lado.

Essa integridade aos valores individuais marca o cinema de Mann e é reflexo de como o próprio cineasta encara seu ofício. Mann não faz concessões ao que Hollywood entende como gosto popular. Ele parece acreditar – erroneamente ou não, resta perguntar – que o quê o público quer são bons filmes. Talvez por isso, não possui nem um grande sucesso no currículo, mas é paradoxalmente um dos nomes mais respeitados da indústria. Muitos consideraram a transposição de MIAMI VICE para o cinema, um projeto com potencial de franquia, como uma tentativa de Mann de obter aquele blockbuster de verão que julgam faltar em sua carreira. Vendo o resultado final, transbordando de estilo, crueza e rigor, não existe nada mais distante da apatia presente na maioria dos sucessos da temporada. MIAMI VICE é tão comercial quanto foi COLATERAL. Aproveita inclusive da tecnologia digital empregada na captação das imagens neste último e a leva além. O diretor percebe que o verdadeiro potencial das câmeras digitais de alta definição não está em copiar a qualidade da película, como outros realizadores podem acreditar. Um (bom) filme como SUPERMAN - O RETORNO, por exemplo, que utilizou a mais avançada câmera digital, poderia muito bem ter sido feito em película com o mesmo efeito ou até melhor. Mann, ao contrário, usa-as para obter um visual único, ampliando o espectro de cores e ao mesmo tempo mantendo a textura seca exigida pela trama e pelo tratamento hiper-realista do seu realizador. Em determinados momentos, a impressão é de que estamos vendo uma reportagem de TV. Graças ao vigor da direção, MIAMI VICE transcende em muito os típicos policiais americanos. A série original já era sinônima de boa e séria dramaturgia televisiva. Sua versão para a tela grande expande suas qualidades, tem ação, inteligência e o bom acabamento formal característico de seu diretor. Para o público que quer um bom filme, não poderia ser melhor.

Nota: ****

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2 Comentários »

  1. A GALÁXIA » KAS DEIXA UM MULLET CRESCER EM “MIAMI VICE” disse,

    25 de Agosto de 2006 @ 09:55

    […] […]

  2. A GALÁXIA » NOVA RESENHA disse,

    1 de Setembro de 2006 @ 15:18

    […] Impressionante como os filmes mais autorais, mesmo sendo blockbusters de estúdio, esse ano afundaram na bilheteria. MIAMI VICE é um fracasso retumbante, MISSÃO: IMPOSSÍVEL 3 decepcionou, SUPERMAN: O RETORNO foi abaixo do esperado. O estranho é que são bons filmes! E os grandes sucessos? Só as mega-bobagens de estúdio, os projetos que vêm na caixinha do McDonald’s. Aqui temos mais um que se encaixa na primeira categoria. Tudo bem que talvez seja o mais fraco dos exemplos dados mas ainda tem sua personalidade. Clique aqui e confira a resenha do novo filme de M. Night Shyamalan, A DAMA NA ÁGUA. […]

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