MOTOQUEIRO FANTASMA (por Kas)

motoqueiro fantasma - motoqueiro fantasma

GHOST RIDER, EUA, 2007
De Mark Steven Johnson
Com Nicolas Cage, Eva Mendes, Wes Bentley, Sam Elliott, Peter Fonda

Se existe um personagem de quadrinhos que se pode chamar de irremediavelmente datado, este é o Motoqueiro Fantasma. Todos os demais, de uma forma ou de outra, podem ser atualizados. Até mesmo o Capitão América, nascido para levantar a moral da juventude americana enquanto os pais lutavam pelo país na 2ª Guerra. Ou alguns frutos da Era Atômica, como Hulk, Homem-Aranha ou X-Men, todos resultados de experiências radiotivas. Ou ainda Homem de Ferro, surgido durante a Guerra da Coréia e que ganha uma revisão para o cinema ano que vem, desta vez com a origem situada no Afeganistão.

Mas o Motoqueiro Fantasma não tem jeito. Sua época está estampada nem tanto na origem e sim na essência do personagem. Um motoqueiro vestido de couro e corrente, com um crânio flamejante, pilotando uma Harley Davidson? Só essa descrição remete diretamente aos Hell’s Angels (anjos do inferno, motoqueiro idem, perceberam a referência?). E sua atitude é puro Heavy Metal, que reinou supremo até a década de 80 e mesmo com as releituras recentes, não conseguiu sair do túmulo. Ainda, pelo menos.

E é lá que deveria ter permanecido esse personagem do terceiro escalão da Marvel Comics, que nunca fez grande sucesso, mas que tem (teve?) fãs ferrenhos, os mesmos que ouviam Black Sabbath e Iron Maiden nos anos 80. Ou pelo menos Kiss, com quem dividia o aspecto “infernal”. Mas nos quadrinhos, nunca conseguiu escapar da síndrome de “espírito da vingança”, um bom moço que pela mais bem intencionada das razões, vende a alma para o diabo e depois se rebela contra o mesmo. Ou seja, era sempre a mesma trama: o Motoqueiro tinha de enfrentar alguns bandidinhos de segunda e ocasionalmente algumas crias do inferno, enviadas por Mefisto para cobrar a dívida do herói inadimplente.

E é essa a trama que chega agora ao cinema, de forma lamentável. O jovem Johnny Blaze vende sua alma em troca da cura do câncer de seu pai, só pra ser passado para trás por Mefisto. Este é feito por Peter Fonda, cuja presença aqui mais parece uma jogada de marketing (ele era o astro de SEM DESTINO, perceberam a referência?). Já adulto e na pele de um recauchutado Nicolas Cage (que, todo mundo sabe, é fã declarado de quadrinhos, mas é péssimo pra escolher seus projetos do gênero), Blaze vive de praticar manobras cada vez mais arriscadas com sua moto e é famoso por sobreviver aos piores acidentes. O que os fãs não sabem é que ele não pode morrer, pois isso quebraria o contrato. Ou seja, além de inadimplente, ele é um charlatão. Grande exemplo para a garotada. Até que um dia Mefisto aparece para cobrar a dívida. A partir daí, toda noite ele irá se tornar o Motoqueiro Fantasma, e irá recolher para o inferno todas as almas perdidas dos criminosos, estupradores e assassinos, além de outros bicos mais solicitados por seu empregador. Uma mistura de fiscal da receita e motoboy.

Tudo seria até engraçado e até mesmo empolgante caso o diretor e roteirista Mark Steven Johnson não fosse tão incompetente. Johnson é o mesmo que destruiu no cinema o Demolidor, um personagem da Marvel bem mais interessante e promissor. E não aprendeu nada com os erros cometidos no filme anterior. Aliás, comete vários novos. É impressionante como um filme tão equivocado, tão mal escrito e dirigido com um amadorismo gritante seja lançado como está, mesmo considerando que a fornalha hollywoodiana não é das mais cuidadosas. Johnson não consegue dirigir uma cena sequer sem recorrer aos clichês mais surrados e à soluções narrativas mais anacrônicas que seu personagem-título. As poucas idéias razoáveis que surgem são prontamente ignoradas ou mal exploradas, como aquela que estabelece uma linhagem de motoqueiros fantasmas desde o velho oeste. Mas mesmo o link desta linhagem, o coveiro feito pelo competente Sam Elliott, serve apenas como muleta narrativa, explicitando toda a trama até então para o herói e para o público. Uma cavalgada com ambos que acontece perto do clímax se justifica apenas pela possibilidade do visual bacana (mesmo que fake, como todo o filme), já que não há menor função dramática. Com a desculpa de ser fiel ao personagem, o diretor mantém o mesmo visual imortalizado nas tatuagens de milhares de metaleiros, mas busca sintonizá-lo ao público alvo atual ao colocá-lo como praticante de “esportes radicais”, algo que foi usado com resultados igualmente ridículos no mediano QUARTETO FANTÁSTICO. A diferença é que, perto de MOTOQUEIRO FANTASMA, o filme de Tim Story é uma obra-prima.

Se o herói está razoavelmente lá, mesmo da forma mais banal possível, os vilões são irremediáveis. Mark Steven Johnson não só escala mal os atores (Wes Bentley, um ator competente, está completamente deslocado como Coração Negro), como dá a eles as piores falas já ouvidas num filme de HQ, e para destacar que são maus de verdade, a cada aparição eles completam as mesmas frases com risadas satânicas. É constrangedor.

Se feito com competência e inteligência, o filme inteiro poderia se passar no velho oeste ou até mesmo na Grécia Antiga que ainda assim conectaria com o público. Mas do jeito que está, só um pacto com o demônio explica o sucesso que obteve nas bilheterias.

Nota: • ½

 | Enviar por e-mail  | Hits para esta publicação: 1292

2 Comentários »

  1. Saulo disse,

    8 de Março de 2007 @ 18:33

    Pois é, eu vi o filme, e tenho que concordar com o Gelugorte. Quando acabou o filme, fiquei pensando no elenco: Fiquei pensando em um Peter Fonda. Ok, ele só ficou conhecido por um filme ( e foi indicado a um oscar por um outro, mas que infelizmente não ganhou, perdendo para um Jack Nicholson por Melhor Impossível), mas Easy Rider é uma referência cinematográfica, além do que, o cara é membro de uma família de Lendas, como Jane Fonda e Henry Fonda, uma das maiores lendas vivas do cinema ( Recomendação: Se quiserem saber quem é o pai do diabo neste filme, recomendo que vejam Era uma Vez no Oeste, e saberão quem é Henry Fonda. Aí vcs terão um diabo de verdade, e um vingador de verdade, que é Harmônia!). Fiquei pensando em Nicolas Cage, que tem um careca, num Wes Bentley, em uma Eva Mendes ( uma das poucas coisas que valem a pena no filme). Até hoje não sei pq eles estão neste filme… Aliás, pq um Ben Affleck entrou no Demolidor? Ele tb tem um careca… Este Mark Johnson deve ter um santo forte, para convencer atores ótimos para fazerem filmes horriveis ( o diretor do Bloodrayne deve fazer uma macumba forte! Colocar Ben Kingsley(???!!!!) como o vilão neste filme é dose!)

  2. Raphael disse,

    20 de Março de 2007 @ 23:50

    visita la www.flogao.com.br/wheeling666

RSS para comentários nesta publicação · URI para link desta publicação:

Deixe um Comentário

Você deve estar conectado para postar um comentário.