* NA NATUREZA SELVAGEM / SPEED RACER (por Kas)

INTO THE WILD, EUA, 2007
De Sean Penn
Com Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, William Hurt, Jena Malone, Brian Dierker, Catherine Keener, Vince Vaughn, Kristen Stewart, Hal Holbrook, Dan Burch e Joe Dustin
SPEED RACER, EUA, 2008
De Andy e Larry Wachowski
Com Emile Hirsch, Susan Sarandon, Christina Ricci, Matthew Fox, Scott Porter, John Goodman, Richard Roundtree, Benno Fürmann, Hiroyuki Sanada, Christian Oliver, Cosma Shiva Hagen, Paulie Litt
Chris McCandless abandona a chance de ir para Harvard e uma vida confortável com os pais para abraçar a chance de uma vida plena nas estradas e naturezas da América. Sua meta é alcançar o Alasca, espaço mítico na mente do jovem, impregnada pelas aventuras naturalísticas de Jack London e a prosa existencial de Kerouac e Thoreau. Um local onde Chris, auto-rebatizado Alexander Supertramp, acredita poder se ver livre da contaminação humana. Você não precisa de relacionamentos humanos para ser feliz, reflete a princípio. Deus colocou felicidade em tudo ao nosso redor.
Speed Racer desde criança foi completamente fascinado por carros e corrida. Também, não poderia ser diferente, sendo filho de um engenheiro automobilístico e irmão de um jovem e talentoso piloto. Sua passagem para a vida adulta é marcada pela morte do irmão, após este abandonar subitamente o lar ao se desentender com o pai. Tendo se tornado também um talentoso piloto, Speed hesita entre aceitar uma proposta de patrocínio de um grande conglomerado ou continuar seguindo carreira dentro dos modestos parâmetros estabelecidos por sua família.
Em que pese as pretensões artísticas de NA NATUREZA SELVAGEM e o delírio tecnológico de SPEED RACER, em última instância são ambos sobre o peso da família na formação moral do adolescente. No caso do primeiro, dirigido e escrito por Sean Penn a partir de uma história real, Chris abandona lar e a civilização por desacreditar na possibilidade de redenção do âmbito familiar, tomando como base o relacionamento tumultuado de seus pais (interpretados por William Hurt e Márcia Gay Harden). Sua história é narrada por sua irmã caçula, apesar desta não ter presenciado nenhuma dos eventos que o filme mostra. Mas é uma testemunha confiável dos eventos que levaram à deserção de Chris, e é através de seu depoimento que entendemos as razões que levam um jovem inteligente e bem-educado, de carreira promissora a abandonar tudo para cair na estrada sem lenço nem documento. Se por um lado é uma tentativa óbvia de Sean Penn de justificar psicologicamente as atitudes de Chris, por outro explicita o ponto central da obra. Chris abandona sua família biológica para encontrar outra na estrada, formada pelas várias pessoas que cruzaram seu caminho em direção ao Alasca. A ponto de uma delas ser até propor adotá-lo oficialmente. Mas a desilusão de Chris com o núcleo familiar é forte demais, algo que só irá rever ao final de sua jornada. É quando tem a bonita conclusão de que a felicidade só é real se compartilhada.
Por outro lado, SPEED RACER, adaptado da famosa série de animação japonesa, apresenta o ideal da família, aquela que unida enfrenta todos os desafios. Mesmo quando é abandonada pelo irmão mais velho, é por um motivo altruísta. Por ela, o herói enfrenta a tentação promovida pelo dinheiro fácil e pela falta de ética. E é em cima da família que Andy e Larry Wachowski constroem seu centro emocional. E o fazem com inesperada competência, já que de outra forma, SPEED RACER seria apenas um espetáculo visual (nem tão impressionante assim) e uma crítica descerebrada ao capitalismo selvagem. Mas é difícil não se emocionar quando o grande John Goodman, que faz o patriarca da família Racer, confessa a Speed que perdeu seu irmão mais velho não quando este morreu, e sim quando deixou este sair de casa. Os Wachowski, eles mesmos irmãos, compreendem esta dinâmica, e só essa cena vale mais emocionalmente que toda a trilogia MATRIX reunida. E curiosamente, dialoga diretamente com outra em NA NATUREZA SELVAGEM, aquele momento em que William Hurt, desesperado após meses de desaparecimento de seu filho, sai de casa e desaba no meio da rua.
O que conecta personagens de origens tão distintas e até mesmo antagônicas é a mesma inocência e honestidade de princípios. São personagens incorruptíveis, que lutam cada qual a seu modo contra a hipocrisia e a falsidade ideológica resultantes do capitalismo selvagem. Ambos têm também as mesmas feições, a do talentoso Emile Hirsch, que oferece em ambos os papéis a mesma serenidade e convicção. Ainda é cedo para chamá-lo de astro, mas a verdade é que Hirch está rumando em direção ao estrelato com a integridade e a velocidade de seus personagens na tela.
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