BOM PASTOR, O (por Kas)

THE GOOD SHEPHERD, EUA, 2006
De Robert De Niro
Com Matt Damon, Angelina Jolie, Robert De Niro, Alec Baldwin, Billy Crudup, Michael Gambon, William Hurt, Timothy Hutton e Joe Pesci
Ao final de O BOM PASTOR fica a dúvida: por que será que Robert De Niro perdeu tanto tempo atuando em porcarias como SHOWTIME, ENTRANDO NUMA FRIA, ENTRANDO NUMA FRIA MAIOR AINDA, O AMIGO OCULTO e A MÁFIA VOLTA AO DIVÃ no lugar de dar continuidade à promissora carreira de diretor iniciada com o nostálgico DESAFIO NO BRONX (1993). Os treze anos que separam os dois filmes, porém, em nada afetaram o talento de De Niro atrás das câmeras, onde continua a apresentar a mesma segurança na narrativa e a mesma obsessão com a relação entre pais e filhos.
Porque O BOM PASTOR, antes de ser uma dramatização da história da CIA, trata dos pecados dos pais caindo sobre os ombros de seus rebentos. Num primeiro momento, os pecados de Edward Wilson, um ex-aluno brilhante recrutado pelo governo americano para se juntar ao Escritório de Serviços Estratégicos, um protótipo para o que viria a se tornar a Agência de Inteligência Americana. Com a mesma eficiência e dedicação com a qual sempre se dedicou aos estudos e aos relacionamentos sociais, o discreto Wilson logo se torna peça chave da organização. Para isso, abre mão de uma vida “normal”, que significa cuidar do lar, da família e até mesmo se separar da mulher a quem ama.
De Niro conta essa história em várias camadas, indo e vindo no tempo. O filme tem início na década de 60, em plena crise de Cuba. A partir de uma fotografia granulada e uma gravação em áudio, Wilson tenta descobrir quem de dentro de sua equipe revelou aos russos a intenção de invadir Cuba e assassinar Fidel. Essa investigação faz com que a trama retorne até o momento em que o jovem Wilson é convidado a participar de uma sociedade secreta, formada pela elite da juventude americana, e posteriormente do embrião da CIA. Aliás, até mesmo antes desse momento. É quando entra a primeira relação pai-filho do filme de De Niro: Wilson carrega a culpa por guardar as últimas palavras de seu pai antes deste se suicidar. Esse segredo pode ser a chave da discrição do personagem, cuja sobriedade e introspecção são prato cheio para a atuação minimalista de Matt Damon. Essa relação com a figura paterna irá se espelhar na de Wilson com o próprio filho, deixado de lado enquanto Wilson cuida das necessidades da Pátria-Mãe. Mas é exatamente a forma como a Pátria-Mãe se utiliza de Wilson para seus próprios fins, tornando-o ao fim apenas um fantasma, uma sombra de ser humano, é que forma o esqueleto-mor de O BOM PASTOR. Por trás de toda a intrincada trama de espionagem, reviravoltas e afins, o que segura a atenção do espectador durante as quase três horas de duração do filme é exatamente a tragédia de um homem, condenado a viver em segredo e solidão por seu pai e por seu país, e destinado a exigir de seu filho semelhante sacrifício.
Nota: *** ½
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6 Comentários »
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A GALÁXIA » NOVAS RESENHAS disse,
27 de Março de 2007 @ 18:36
[…] […]
Tadeu disse,
28 de Março de 2007 @ 14:49
Kas,
Segundo uma entrevista que o De Niro deu para TIME, por ocasião do lançamento de O BOM PASTOR nos EUA, ele trabalhou durante 8 anos neste projeto. Ele acha que dirigir mais três filmes é o suficiente porque, segundo ele, dirieção dá muito trabalho e para fazer um filme do jeito “certo” dá mais trabalho ainda. Parece-me que ele também dirigiu algumas cenas de A CARTADA FINAL depois da polêmica ocorrida nos bastidores entre Marlon Brando e Frank Oz.
Kas disse,
28 de Março de 2007 @ 15:28
Isso mesmo. Segundo consta, Brando se recusava a ser dirigido por Oz e então De Niro teve de realizar todas as cenas com ele, porém seguindo as instruções de Oz (um diretor que eu adoro, aliás). Realmente, dirigir dá trabalho e dirigir um bom filme dá mais trabalho ainda. Por isso fica mais fácil fazer caretas em filmes bobocas e engordar a conta bancária.
alessandro disse,
8 de Julho de 2007 @ 13:17
Kas, o grande problema e para alguns a qualidade de O Bom Pastor é aquele tipo de filme diferente da maioria daqueles que infestam as telas. Não é do tipo “blockbuster” e nem mesmo deve ser visto simples “enternimento”. Acredito que “O Bom Pastor” seja aquele tipo de filme feito para provocar reflexão sobre aspectos da vida e principalmente sobre os métodos escusos empregados pela CIA. Até que que ponto a CIA está realmente preocupada com o bem estar dos americananos e está disposta a fazer para manter os Estados Unidos como grande Nação? São estas as perguntas que parecem ecoar durante o filme que em determinados trechos é bastante complexo e por isso deve ser visto mais de uma vez para ser compreendido. É por isso que muitos o classificam como “chato” e devido as críticas a política americana foi um fracasso nos Estados Unidos. Não sei se você notou mais dentro do aspecto técnico o filme impecável e nem por isso teve muitas indicações para o Oscar. Você não acha isso estranho? Com relação a atuação dos atores mais uma vez Matt Damon prova que é um ótimo ator e Angelina Jolie também é uma atriz de respeito, embora o papel dela no filme seja ingrato e pequeno. De qualquer forma O Bom Pastor é um filme muito acima da média e merece agora uma segunda chance em DVD.
Kas disse,
8 de Julho de 2007 @ 13:53
Concordo plenamente, Alessandro.
Marcelo Souza disse,
6 de Agosto de 2007 @ 08:38
O filme é interessante por demonstrar como certas escolhas podem destruir a alma de um homem. É como se o filme afirmasse: “Não jogue certos jogos ou perderá não somente, mas também a a alma” ou “Deixai toda esperança, ó vós, que entrais”.
Embora tenha gostado do filmes não entendi a razâo do título, a morte da mulher que o protagonista levou para a cama no exterior.
abs,
Marcelo