CROCODILO, O (por Kas)

crocodilo - crocodilo

IL CAIMANO, Itália/França/2006
De Nanni Moretti
Com Silvio Orlando, Margherita Buy, Jasmine Trinca, Michele Placido, Nanni Moretti, Giuliano Montaldo

O ator e diretor Nanni Moretti é constantemente tido como o Woody Allen italiano, o que é na verdade uma apropriação meio indevida, já que ambos trabalham registros de humor bem distintos.

Pelo menos até este O CROCODILO, a brilhante comédia na qual Moretti apresenta seu personagem mais “alleniano”, o produtor de cinema Bruno Bonomo (Silvio Orlando). Há dez anos sem filmar, o produtor, especialista em filmes de baixíssimo orçamento, se casou nesse período com a estrela de seus filmes (Margherita Buy) e com ela teve dois filhos, a quem coloca pra dormir contando a trama de continuações jamais filmadas de um de seus grandes sucessos. É a forma que Bonomo encontra de dar vazão a seu ímpeto criativo, já que faz tempo o dinheiro não entra para alavancar seu último projeto, que narraria o retorno de Colombo à Europa. Com a defecção de seu diretor (o também cineasta Giuliano Montaldo, especialista em filmes políticos e autor de GIORDANO BRUNO e SACCO & VANZETTI), Bonomo se desespera de vez. Até que cai no seu colo um roteiro escrito por uma diretora iniciante (a gracinha Jasmine Trinca). Com o título O CROCODILO, trata da ascensão ao poder do magnata da comunicação Silvio Berlusconi, com todos os podres e abusos deferidos pelo mesmo ao longo do caminho. Com um assunto tão espinhoso em mãos, fica cada vez mais difícil para Bonomo levar o projeto adiante. A isso se soma os problemas de ordem pessoal, quando sua esposa resolve se separar.

Conhecido por seus filmes confecionais como A MISSA ACABOU e CARO DIÁRIO, além do belíssimo O QUARTO DO FILHO (seu filme anterior, vencedor da Palma de Ouro em Cannes), Moretti se aproxima aqui da tradição da tragicomédia italiana popularizada por Dino Risi, Pietro Germi, Ettore Scola e Mario Monicelli, ao mesmo tempo em que desfere uma crítica virulenta ao totalitarismo resultante da eleição de Berlusconi ao cargo de Primeiro Ministro. Mas utilizando o viés da comédia, sem cair na denúncia agressiva de um Michael Moore. E nem precisa, já que o próprio Berlusconi, que aparece aqui em trechos de reportagens televisivas, é uma figura auto-satírica. Isso fica mais do que claro nas reações dos demais líderes europeus a um discurso de Berlusconi, incluído no filme.

Dessa forma, Moretti investe na variedade de tons, que vai da comédia rasgada ao melodrama, culminando nos momentos finais do filme em um clima de thrillers político tão festejado na década de 70 na Itália. Ao contrário de suas outras produções, Moretti não se dá o papel principal em O CROCODILO, mas fica com um secundário, o dele mesmo, convidado por Bonomo para viver Berlusconi no filme dentro do filme. E encerra a obra com um tom positivo, mas amargo, uma celebração do humor e do cinema como a mais alta e desobediente forma de protesto.

Nota: *** ½

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1 Comentário »

  1. A GALÁXIA » NOVAS RESENHAS disse,

    25 de Janeiro de 2007 @ 09:28

    […] […]

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