GANGSTER, O (por Gelogurte)

De Ridley Scott
Com Denzel Washington, Russell Crowe, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Lymari Nadal, Ted Levine, Ruby Dee, Carla Gugino, Cuba Gooding Jr e Armand Assante
Prezado Senhor Scott… Prezado Sir Ridley…
o senhor começou sua carreira cinematográfica com três grandes filmes, dois deles considerados verdadeiros clássicos em seus gêneros. Depois, caiu em uma horrorosa mania visual publicitária anos 80 que chegava a dar vergonha! Tudo bem, é um filme muito bem intencionado e que tem seus méritos entre as recordações da minha infância, mas para todo lado eram bolhas de sabão, poeira, fumaça, cinzas… qualquer coisa para encher a tela. Meio envergonhado pelo fracasso, foi brincar com filmes policiais mais modestos e eficientes… até que inventaram de chamar de genial um filme bem medíocre sobre duas chatas na menopausa que saem aprontando pelos EUA afora. Aí sim, o seu ego voltou a inflar! Volta a baranguice visual dos anos 80, talvez ainda mais exacerbada por influência do seu irmão Tony, que emplacava um sucesso atrás do outro. Não que nos dez anos seguintes o senhor só tenha errado. De seis produções, duas não me recordo bem para julgar, duas são lixos que me divertem, outra é quase inassistível e por último um filme de guerra que cresce na revisão mas cujos momentos ruins estão no Olimpo de “Momentos Mais Constrangedores da Minha História do Cinema”. Mas nesse ponto, o senhor já tinha entrado na mentalidade de que seu nome garante um projeto. E eu já tinha perdido a paciência. Deixei de lado as esquisitices do sobrinho do Coppola (mas ainda vou vê-lo em DVD, que está acumulando poeira na minha coleção) e passei direto para o capa e espada com o ator de papelão e sem equalizador na voz. Saí do cinema pensando “com um lixo desse, agora ele aprende”. Ainda mais que o público americano refletiu esse pensamento nas bilheterias. Mas lá veio a bilheteria mundial para salvá-lo e convencer o estúdio permitir que o senhor fizesse uma “Versão do Diretor” (que também me aguarda em DVD) cuja crítica aceitou com maior boa vontade. Para passar o tempo, lá estava o senhor brincando com outros seis talentos e entregando um dos mais chatinhos curtas presentes naquela antologia. Seu amor pelo cinema o impeliu a fazer uma homenagem à sétima arte com um dos seus protagonistas premiados… e lá foi o público fugindo do senhor de novo. Pena que por um filme muito simpático. E lá foi o senhor de novo, insistindo no seu talentoso brucutu e trazendo à bordo um queridinho do seu irmão.
Sabe, Sir Ridley, demorou muito mas o senhor finalmente conseguiu. Finalmente o senhor deixou de lado aquela jecança visual. Finalmente o senhor parece ter admitido que esse negócio de estilo tem que se adequar ao filme, e não ao gosto do senhor. Tudo bem que, a impressão que eu tenho, é que o senhor assistiu à última obra prima de David Fincher, ZODÍACO, muitas vezes e pensou: quero fazer um filme igual a esse. Claro, com suas devidas alterações. Mas até o mesmo Diretor de Fotografia o senhor chamou. Não que eu o culpe, a ficha de Harris Savides é impressionante e fala por si só… mas cá entre nós, o outro filme saiu faz pouco tempo. Mas vamos deixar isso de lado. Comparar uma obra à outra é infantil e um exercício de futilidade nesse sentido. Principalmente porque o senhor entregou um filme praticamente tão bom quanto! De onde saiu isso eu não sei, mas foi uma agradabilíssima surpresa.
Agora, cá entre nós, o senhor sangra baixo, não é? Primeiro com seus protagonistas. Quando dizem que Russell Crowe é um “diamante bruto”, acho um equívoco. Sim, ele é um brucutu e suas peripécias são exaustivamente exibidas pela mídia. Mas, puxa… como ele é bom! Lembro da primeira vez que o vi em RÁPIDA E MORTAL e como ele roubou a cena. E ao lado de Gene Hackman ainda por cima! Por mais que insistam em colocá-los em papéis másculos, e eu digo que ele merecia o Oscar de coadjuvante por seu Bud White de LOS ANGELES - CIDADE PROIBIDA, ainda me lembro dele como o frágil Jeffrey Wigand em O INFORMANTE de Michael Mann. E mesmo sob a batuta arroz com feijão de Ron Howard, ele conseguiu salvar a segunda metade de UMA MENTE BRILHANTE. Verdade, com muita ajuda de Jennifer Connelly, mas mesmo assim. Ainda sofro ao saber que MESTRE DOS MARES não terá continuações. Até mesmo o senhor usou-o de forma inesperada em UM BOM ANO, meio nerd, meio caretão… e ainda assim divertido. Isso depois dele ter tido severas críticas quando publicaram que ele era um dos piores chamarizes de bilheteria do panteão de Hollywood.
E o Denzel Washington? Tudo bem que hoje em dia ele parece ter entrado na mentalidade de ator/diretor, sabe como? Daqueles que pegam uns filminhos bem bestas, onde ele é o único rosto reconhecível, ganha um bom salário… só para poder financiar seus próprios filmes depois. E andam elogiando o tal do THE GREAT DEBATERS! Se for assim, dou o maior apoio. Mas ainda bem que o senhor arrumou esse ótimo trabalho para que ele pudesse brilhar novamente. Porque cá entre nós, esses filminhos que ele anda fazendo com o seu irmão… putzgrila… tá danado. E o Tony só tá piorando! Tudo bem que bom mesmo ele nunca foi. Outro dia eu estava vendo um pedaço de TOP GUN e fiquei com vergonha quando minha namorada chegou. Mas cadê o Tony de MARÉ VERMELHA, VINGANÇA, AMOR À QUEIMA ROUPA… até mesmo de INIMIGO DO ESTADO? Já eram cheios de firula mas calma lá! A mania que ele começou com CHAMAS DA VINGANÇA, que nas mãos de um diretor menos caricato seria um grande filme, já cansou antes mesmo de começar. E nem vou mencionar DOMINO porque não sou de chutar cachorro morto.
O resto, vai bem, obrigado. Se eu tenho uma reclamação a fazer é a presença de Cuba Gooding Jr., que continua ruim à beça. E ainda acho que a indicação ao Oscar da Ruby Dee é um daqueles “temos que indicá-la antes que ela morra” da Academia. Afinal, ela aparece umas duas vezes por poucos segundos o filme todo. Quanto você quer apostar que a cena dela que vão mostrar na cerimônia é aquela onde ela peita o filho? Se estiver enganado, já peço desculpas, mas acho que não estou. Não que ela não seja ótima mas o prêmio dela teria que ser Melhor Figurante pelo tamanho do papel.
É uma pena terem mudado o título do filme aqui no Brasil. O American do nome original é altamente simbólico! Vimos através da vida de um criminoso o que é o Sonho Americano, o American Way of Life. Mas provavelmente a Universal brasileira achou que era só uma forma boba de patriotismo (eles se esquecem que o senhor é britânico), o que é uma pena.
Para terminar, gostaria apenas de agradecer, Sir Ridley. O GÂNGSTER é seu melhor filme em muitos anos. Ouso dizer que é um de seus melhores filmes, ponto. Lá em cima junto com BLADE RUNNER e ALIEN. Obrigado por usar o ótimo roteiro de Steven Zaillian, que deveria dirigir mais filmes! Não entendi por quê odiaram tanto a nova versão de A GRANDE ILUSÃO e acho que mais gente deveria assistir À QUALQUER PREÇO, que é anterior e muito melhor do que ERIN BROCKOVICH, um dos filmes mais superestimados da história. E não se preocupe se seu filme é longo, Sir Ridley. Sua narrativa está impecável e o filme passa voando. Dessa vez, o senhor nem vai precisar fazer uma “Versão do Diretor”, seja muito maior (CRUZADA), seja menor (ALIEN) ou até mesmo daquelas dispensáveis (cinco versões diferentes para BLADE RUNNER é imperdoável).
Mais uma vez, obrigado, Sir Ridley! Obrigado por me mostrar que mesmo aos 70 anos e 43 deles como diretor, eu ainda posso esperar que diretores como o senhor se reinventem e voltem a fazer cinema de verdade.
Nota: ****
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