LABIRINTO DO FAUNO, O (por Kas)

labirinto fauno 1 - labirinto fauno 1

EL LABERINTO DEL FAUNO, Espanha/México, 2006)
De Guillermo Del Toro
Com Ivana Baquero, Doug Jones, Sergi López, Ariadna Gil, Maribel Verdú, Alex Ângulo, Roger Casamajor, César Bea

O mexicano Guillermo Del Toro faz parte, juntamente com seu compatriota Alfonso Cuarón, mais Terry Gilliam e o neozelandês Peter Jackson, do grupo de cineastas atuais capaz de um raro feito: conciliar os aspectos mais libertadores da fantasia com comentários sempre instigantes sobre o mundo real. Normalmente, quando diretores investem em mundos fantásticos, tendem a abandonar qualquer âncora com a realidade, como é o caso de Ridley Scott em A LENDA, Chris Columbus em seus dois HARRY POTTER e Andrew Adamson em AS CRÔNICAS DE NARNIA. Del Toro, Gilliam, Cuarón e Jackson, por sua vez, usam as possibilidades ilimitadas da fantasia para refletir sobre o poder da imaginação, da compaixão e do sacrifício, em contraste com o cinismo do mundo atual.

O belíssimo O LABIRINTO DO FAUNO, que Del Toro apresentou no último Festival de Cannes (onde foi recebido como obra-prima), faz exatamente isso. Trata-se de um conto de fadas situado em meio a Guerra Civil Espanhola. Uma garota (a ótima Ivana Baquero, de ROMASANTA) se muda com a mãe grávida (Ariadna Gil, de SEDUÇÃO, outro filme passado durante o conflito, vencedor do Oscar de Filme Estrageiro) para uma velha casa em meio a uma floresta. A casa funciona como sede de um acampamento do exército franquista liderado por seu novo padrasto, o sádico oficial Capitão Vidal (o ótimo Sergi Lopez, de PINTAR OU FAZER AMOR e COISAS BELAS E SUJAS). Vidal é o responsável por eliminar focos locais de resistência ao recém instaurado regime e não mede forças para tanto. Aos olhos da pequena Ofélia, através dos quais a história é contada, Vidal é o típico vilão de contos de fada, transbordando o mal e o ódio. O talento de Lopez o impede de cair na caricatura. Aos poucos, fica claro que Vidal se interessa menos pela esposa que pelo filho homem que ela carrega no ventre. Ao lado da casa, Ofélia descobre um labirinto, e dentro dele, um Fauno, uma criatura ancestral enviada de outra dimensão para encontrar sua princesa desaparecida. Acreditando ser Ofélia a tal princesa, o Fauno a incita a passar por três testes antes de voltar para sua dimensão. Paralelamente, vemos o esforço cada vez mais violento e desumano do exército em minar a resistência dos rebeldes, estes auxiliados secretamente pela empregada Mercedes (Maribel Verdú, também de SEDUÇÃO, além de E SUA MÃE TAMBÉM, do Cuarón).

Desde o início, Del Toro já cria um sublime visual fantástico, mesmo para as cenas mais realistas, algumas até mesmo fortes e sanguinolentas, sugerindo que o conto de fadas aqui é para os adultos. Segue a partir daí uma narrativa que alterna entre o drama de guerra e o realismo fantástico tão próximo dos ficcionistas latinos. Sua experiência no cinema hollywoodiano, onde realizou adaptações de quadrinhos como BLADE 2 e HELLBOY e ficções de horror como MUTAÇÃO, fez com que ingressasse no primeiro time dos cineastas e desenvolvesse sua técnica narrativa e o domínio dos cada vez mais comuns efeitos visuais. Desta forma, Del Toro faz excelente uso dos mesmos, mesmo com orçamento bem aquém da média de Hollywood. O cineasta constrói assim sua carreira alternando entre grandes produções como as citadas e outras mais intimistas, faladas em espanhol e rodadas em seu país natal e na Espanha, como CRONOS, A ESPINHA DO DIABO e este. Aliás, O LABIRINTO DO FAUNO é a segunda parte de uma declarada trilogia sobre a Guerra Civil Espanhola, iniciada em A ESPINHA DO DIABO e que pretende dar sequência logo que terminar HELLBOY 2. Tanto em LABIRINTO quanto no anterior, Del Toro depõe a favor da imaginação como único recurso possível para sobreviver a um mundo cruel e violento, seja em qualquer época e em qualquer lugar. É nesse ponto – além do óbvio virtuosismo técnico – que seu cinema se aproxima do de seus colegas. Mesmo dotado de fantasmas e criaturas monstruosas, o mundo fantástico do cineasta é bem mais acolhedor que a realidade, esta sim ameaçadora e aterrorizante.

Nota: ****

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6 Comentários »

  1. A GALÁXIA » NOVAS RESENHAS disse,

    1 de Dezembro de 2006 @ 10:12

    […] […]

  2. A GALÁXIA » AS APOSTAS PARA O OSCAR disse,

    6 de Dezembro de 2006 @ 17:23

    […] Ficaram de fora as apostas das divisões independentes dos estúdios, que devem favorecer os festejados BABEL de Alejandro Gonzales Iñarritú, PEQUENA MISS SUNSHINE, VENUS de Roger Michell e A RAINHA de Stephen Frears, além de produções estrangeiras como VOLVER de Pedro Almodovar (meu filme favorito do diretor, ao lado de FALE COM ELA), THE CURSE OF THE GOLDEN FLOWER de Zhang Yimou e O LABIRINTO DO FAUNO de Guillermo Del Toro. Achei curioso também a ausência de SUPERMAN: O RETORNO entre as apostas da Warner para as categorias técnicas como efeitos visuais, mixagem de som e edição de som, já que o filme de Bryan Singer foi o maior lançamento do estúdio em 2006. […]

  3. A GALÁXIA » OS MELHORES DE 2006 - FILM COMMENT / INDIEWIRE disse,

    21 de Dezembro de 2006 @ 23:00

    […] 15. O LABIRINTO DO FAUNO (Guillermo Del Toro, México/Espanha/EUA) […]

  4. A GALÁXIA » OS MELHORES DE 2006 - REVISTA TIME E STEPHEN KING! disse,

    22 de Dezembro de 2006 @ 16:34

    […] 6. O LABIRINTO DO FAUNO […]

  5. A GALÁXIA » E O OSCAR VAI PARA… disse,

    24 de Janeiro de 2007 @ 15:19

    […] ROTEIRO ORIGINAL: BABEL (Guillermo Arriaga) CARTAS DE IWO JIMA (Iris Yamashita e Paul Haggis) PEQUENA MISS SUNSHINE (Michael Arndt) O LABIRINTO DO FAUNO (Guillermo del Toro) A RAINHA (Peter Morgan) […]

  6. A GALÁXIA » LANÇAMENTOS DE MAIO 2007 EM DVD! disse,

    23 de Abril de 2007 @ 15:28

    […] Por fim, temos os sucessos mais recentes que ganham agora versão digital para venda direta. Como é o caso do grande vencedor do 1º Selenita de Ouro, O LABIRINTO DO FAUNO (da Warner), que conquistou também três estatuetas no último Oscar. A Fox lança O DIABO VESTE PRADA, um filme apenas simpático que conquistou o público e a crítica, principalmente pela presença saborosa de Meryl Streep. Um que enfeitou meu Top 10 2006 foi CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO (da Sony), provavelmente o meu Neil Jordan favorito ao lado de NÓ NA GARGANTA, não por acaso ambos baseados na obra de Patrick McCabe. Destaco ainda BONECAS RUSSAS (pela Europa); CACHÉ, TRÊS ENTERROS e ABISMO DO MEDO (todos da California), filmaços também presentes na minha lista de melhores de 2006; O HOMEM URSO, MANDERLAY, A PROPOSTA e QUERIDA WENDY (ainda California), filmes que eu perdi nos cinemas e pretendo retificar isso em DVD. A Universal lança OS SAQUEADORES de Walter Hill, ELIZABETH de Shekhar Kapur, E AÍ MEU IRMÃO, CADÊ VOCÊ? dos Irmãos Coen e o subestimado FILHOS DA ESPERANÇA de Alfonso Cuarón. […]

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