NOVO MUNDO, O (por Kas)

novo mundo - novo mundo

THE NEW WORLD, EUA, 2005
de Terrence Malick
com Q’Orianka Kilcher, Colin Farrell, Christian Bale, Christopher Plummer

Terrence Malick é o mais americano dos cineastas (e não o mais hollywoodiano, que fique claro). Seu amor pela terra, e por tudo que está nela, lembra o dos antigos desbravadores do oeste, homens sem pátria e sem casa que encontraram um novo lar na América. Malick parece ter parado no tempo, e talvez até tenha mesmo. Texano, mantém residência em Austin, bem longe do circuito cinematográfico.

Não é de se surpreender que o cineasta se interessasse em filmar a história de Pocahontas, a mais americana de todas, que já foi mote até de desenho da Disney. Pocahontas foi uma princesa indígena que promoveu o encontro entre o velho e o novo mundo, a partir do contato com colonizadores britânicos na Virginia do século XVII, mais precisamente com o Capitão John Smith, com quem viveu, supõe-se, intenso romance. Detalhe: ela tinha 12 e ele por volta dos 40 anos.

Malick aborda a história de amor com uma mise-en-scène naturalista, mas esta é desconstruída na montagem em favor de uma abordagem mítica, quase onírica. Fator reforçado pela magnífica ambientação sonora, mesclando ruídos naturais a uma bela trilha, que incorpora passagens de Wagner e Mozart. O NOVO MUNDO é um sonho, o sonho de um novo começo, de uma nova civilização, é o sonho de Smith (Colin Farrell) e do Capitão Christopher Newport, líder dos colonizadores (Christopher Plummer). É o sonho de quem já não acredita mais no velho mundo e busca, além-mar, onde fincar raízes. Sonho corrompido, claro, já que não tem como deixar de fora a intolerância, a sede de poder, o medo. Se tem algo do qual Malick gostaria de se lembrar, porém, é a pureza. Talvez por isso seus índios se vistam de forma tão casta, a única liberdade poética que a produção esmerada se permite ter. A relação da princesa e Smith é representação da inocência que este perdeu há tempos – o filme começa com Smith prestes a ser enforcado por um crime do qual não tomamos conhecimento. Pocahontas (vivida com graça pela revelação Q’Orianka Kilcher, de 14 anos) acredita nessa possibilidade de troca entre as culturas, mas Smith não. É por isso que ele a larga, pois sabe que aquele idílio não iria durar para sempre. É no abandono que Pocahontas irá conhecer a dor e a renúncia. Mas manterá a inocência do espírito, mesmo quando se tornar símbolo do bom selvagem no velho mundo.

Malick é fascinado pela inocência. Mesmo quando seus personagens buscam a paz ou a redenção e estas lhes são negadas pela crueldade do mundo. Os desertores de ALÉM DA LINHA VERMELHA, que conhecem o paraíso entre uma vila filipina, são obrigados a voltar à ativa numa batalha sangrenta. Tanto os protagonistas de TERRA DE NINGUÉM quanto os de CINZAS NO PARAÍSO (lançado em DVD como DIAS DE PARAÍSO) conhecem a penúria após sonharem com o éden. Mas ficam a inocência e o amor à terra. O NOVO MUNDO é um poema visual – quase sem diálogos, quando as narrações em off funcionam como um mantra, reforçando o aspecto onírico – de amor àquela que é chamada de mãe, não muito distante das sábias palavras que Gerald O’Hara diz à sua filha Scarlett naquele que é o maior dos épicos americanos: “(a terra) é a única coisa pela qual vale a pena trabalhar, lutar, morrer. Porque é a única coisa que dura.”

nota:

Kas 4 - Kas 4

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