* O ORFANATO (por Kas)

orfanato - orfanato
EL ORFANATO, Espanha/México, 2007
De Juan Antonio Bayona
Com Belén Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Mabel Rivera, Montserrat Carulla, Andrés Gertrúdix, Edgar Vivar

A tradição dos filmes de casa mal-assombrada está bem viva com O ORFANATO, produção espanhola do diretor Juan Antonio Bayona. Tradição, sim, pois o tema é dos mais relevantes da história do cinema (e do imaginário) de horror, exatamente por trabalhar em cima de um medo primário: e se seu próprio lar, seu refúgio, fosse exatamente a causa de seus males e de sua morte? Na literatura, Edgar Allan Poe se esbaldou com as possibilidades claustrofóbicas que tal tema permitia. Seu conto A QUEDA DA CASA DOS USHER foi diversas vezes adaptado para o cinema (a mais memorável destas adaptações pelas mãos do impressionista Jean Epstein em 1928) e serviu de base para todas as releituras de sua premissa, a de um homem lutando para conviver com os fantasmas – reais e imaginários – que habitam seu lar.

A casa mal assombrada impregnou a imaginação dos cinéfilos em títulos tão variados quanto A CASA DOS MAUS ESPÍRITOS de William Castle, DESAFIO AO ALÉM de Robert Wise, OS INOCENTES de Jack Clayton, AMITYVILLE - A CIDADE DO HORROR (lançado em DVD como TERROR EM AMITYVILLE) e POLTERGEIST - O FENÔMENO de Tobe Hooper. Todos estes geraram seqüências ou refilmagens, mas nenhuma delas tão imaginativa quanto a idéia de Ridley Scott em levar o conceito para o espaço. Em ALIEN - O OITAVO PASSAGEIRO, até a concepção da nave lembrava uma mansão ou catedral gótica. Recentemente, outro espanhol revitalizou o sub-gênero com um filme respeitável. OS OUTROS, de Alejandro Amenabar, trazia Nicole Kidman às voltas com criados que poderiam ou não ser do além, algo que só irá se revelar no final surpreendente.

O ORFANATO segue a mesma linha, com resultados igualmente dignos. Um dos elementos recorrentes no cinema de horror é a presença de criancinhas como vítimas ou links para o além, às vezes até mesmo como a origem do mal. Lembram-se do satânico Damien de A PROFECIA? Ou da garotinha de ÁGUA NEGRA (tanto a versão japonesa quanto a refilmagem de Walter Salles, com as quais este O ORFANATO divide mais de um tema).

A trama tem início tem início com seis crianças brincando na porta do tal orfanato. Uma delas, Laura, é então avisada de que será adotada. Anos depois, Laura (a excelente Belén Rueda, de MAR ADENTRO), já adulta, retorna com marido e filho àquela casa onde passou sua infância, com o intuito de transformá-la em uma escola de férias para crianças com deficiência mental. Aos poucos, Laura começa a desconfiar de que os amigos imaginários de seu filho são bem mais reais do que pensava ser. Até que no dia da inauguração da escola, seu filho desaparece misteriosamente, logo após Laura o repreender severamente.

Laura e o marido Carlos recorrem a tudo: polícia, psiquiatras, grupos de alta ajuda. Mas quando Laura começa a desconfiar que os tais “amigos imaginários” do filho podem ter algo a ver com seu desaparecimento, ela procura a ajuda de uma vidente (participação iluminada de Geraldine Chaplin, filha de Charles Chaplin e figura lendária no cinema espanhol por sua presença nos filmes de Carlos Saura). É a partir deste ato que Laura começa a se afastar do cético Carlos, mas isto não a impede de prosseguir com sua busca sobrenatural.

O estreante Bayona conduz com grande segurança os diferentes elementos da trama, tanto os fantásticos – que podem muito bem ser apenas fruto da imaginação e da culpa de Laura – quanto os dramáticos. Neste preciso equilíbrio que estabelece, se aproxima da obra de outro cineasta contemporâneo afeito a tramas fantásticas, o mexicano Guillermo Del Toro (não por acaso produtor executivo de O ORFANATO).

Del Toro realizou dois filmes na Espanha – os premiados A ESPINHA DO DIABO e O LABIRINTO DO FAUNO, este último vencedor do 1º Selenita – que em muito dialogam com esta estréia de Bayona. Tanto pela delicadeza com que aborda o universo infantil quanto pela maturidade que reflete sobre os medos humanos. Em O ORFANATO, Bayona trata do maior medo de todos, maior até do que o de perder um filho: o de ser responsável pela sua morte.

Nota: ****

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1 Comentário »

  1. A GALÁXIA » ÓRFÃOS DOENTES disse,

    10 de Março de 2008 @ 17:50

    […] […]

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