* O ORFANATO (por tHE bLoB)

De Juan Antonio Bayona
Com Belen Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Mabel Rivera, Montserrat Carulla, Edgar Vivar, Geraldine Chaplin
O horror precisa de algumas regras básicas. Os temas principais do gênero são anarquia, caos, violência e destruição, mas essas estórias não funcionam a não ser que haja algo coerente, abaixo da superfície, permeando isso tudo. Eu não falo das convenções do gênero, porque virtualmente todos os modernos cineastas de horror estão cansados de mostrar toda a variação possível de um cenário assustador. O elemento invariavelmente perdido nessas recentes produções é um enredo coesivo e consistente especialmente em estórias que tratam do sobrenatural. Qualquer um pode iluminar assustadoramente um homem segurando um machado debaixo das escadas à espreita do protagonista que desce para o porão, ou criar aparições fantasmagóricas. Mas é em cima de uma estrutura de filme muito bem pensada que se cria um sensação duradoura de apreensão e medo.
Dirigido por Juan Antonio Bayona e produzido por Guillermo del Toro, do mágico e assustador LABIRINTO DO FAUNO, O ORFANATO é o melhor tipo de filme de horror, aquele que confia no suspense e na atmosfera em detrimento de sangue aos borbotões. É uma típica estória de casa mal assombrada - nesse caso, um orfanato mal assombrado – recheado de sobressaltos à noite, portas que rangem e seres que espreitam nas sombras.
A estória começa com um grupo de crianças brincando de Estátua nos jardins do orfanato, lembram-se desse jogo? Quem não brincou? Uma dessas crianças é Laura que está prestes a ser adotada por um casal. O filme salta uns 20 anos e encontramos Laura (Belen Rueda) casada e com um filho adotivo chamado Simon (Roger Príncep). Ela e seu marido, o médico Carlos (Fernando Cayo), compram a casa que abrigava o antigo orfanato com a intenção de reformá-la e abrir um centro para crianças com necessidades especiais.
O jovem Simon, que não sabe da sua condição de filho adotivo e nem da séria doença que lhe aflige, passa seu tempo na imensa casa brincando com seus amigos imaginários, um dos quais se chama Tomás. Na festa de inauguração do centro, Simon desaparece e Laura acha que Tomás é o fantasma de uma antiga criança do orfanato e responsável pelo sumiço de seu filho. O problema é que Laura está sozinha nesse sentimento, seu marido, cético, após várias tentativas de achar o garoto passa a duvidar da sanidade mental da esposa.
Fãs de estórias sobrenaturais irão encontrar situações que evocam OS OUTROS, mas também O SEXTO SENTIDO, POLTERGEIST e do já mencionado LABIRINTO DO FAUNO, que justapõe efetivamente a inocência da infância com atos de puro horror. Como Del Toro, Bayona consegue pegar algo aparentemente inócuo – uma boneca de pano, a maçaneta de uma porta, uma cesta de amoras – e dar um toque incrivelmente sinistro nessas imagens.
Bayona, estreante em longa metragens, constrói um suspense de primeira linha. Seu filme é sóbrio e utiliza os usuais crescendos de suspense que, vez ou outra, nos engana por completo. O filme navega na escola de suspense e terror que prioriza o mote: tudo o que não conseguimos ver é mais aterrorizante daquilo que conseguimos.
Entretanto não se furta, em alguns momentos, de mostrar imagens genuinamente pertubadoras. Esse tom que permeia o filme de Bayona se deve também a elegante fotografia de Oscar Faura, em seu primeiro longa como fotógrafo principal, que através de um trabalho primoroso e sutil informa, entre outras coisas, aos espectadores que a família não está sozinha dentro daquela casa.
O ORFANATO é uma raridade em termos de terror atualmente, um filme emotivo, bem pensado e estruturado que te segura na cadeira, altera sua respiração e te dá uns belos sustos. É certo que pega muita coisa emprestada de outros filmes mas o faz de forma interessante e renovada – você pode pressentir o que está por vir, mas se assustará da mesma forma. Como acontece em O LABIRINTO DO FAUNO, as similaridades e contrastes entre os dois universos é que acentuam a humanidade entre os personagens. Através do tema universal do amor de mãe e da dor insuperável de perder um filho, Bayona nos mostra que a única ponte entre o doloroso mundo real e a fantasia é a morte.
Nota: *** ½
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