PLANO PERFEITO, O (por Kas)
INSIDE MAN, EUA, 2006
De Spike Lee
Com Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Christopher Plummer, Willem Dafoe
De tempos em tempos, um cineasta de grosso calibre embarca num empreendimento comercial para provar que consegue injetar sua assinatura pessoal em um projeto de estúdio sem alienar, porém, o grande público almejado pelo mesmo. Quando é bem sucedido, como foi o caso de Francis Ford Coppola em O PODEROSO CHEFÃO e DRÁCULA DE BRAM STOKER e Brian De Palma em OS INTOCÁVEIS, tal realizador imediatamente entra (ou retorna) ao primeiro time dos cineastas, bancáveis pela indústria e adorados pela crítica.
Spike Lee tenta proeza semelhante com O PLANO PERFEITO, sua incursão em um gênero tão explorado, mas ainda sedutor como o filme de roubo. E mesmo não entregando o belíssimo cinema que Coppola e De Palma conquistaram nos exemplos acima e o próprio Lee em FAÇA A COISA CERTA, ele se mostra como um autor sempre relevante e com completo domínio de sua função de contador de histórias, várias vezes eclipsada por panfletagem gratuita inserida em seus últimos longas.
A trama começa com um eletrizante Clive Owen dirigindo-se à câmera, de um local estreito e claustrofóbico como uma cela de prisão. Seu personagem, Dalton Russell, segue salientando os principais pontos de seu plano de roubo perfeito, incluindo quando, onde e principalmente, como será realizado. A partir daí, passamos a acompanhar o processo de execução do crime, que consiste em invadir uma agência bancária, render todos lá dentro sem se preocupar com a discrição, roubar o que tiverem que roubar e, mesmo com o quarteirão cercado pela polícia, sair são, salvo, rico e, principalmente, livre.
Agindo contra o interesse de Russell está o Detetive Keith Frazier (Denzel Washington, provando que ainda sabe compor um tipo sem cair na caricatura), responsável por negociar com os criminosos a libertação dos reféns. E representando os objetivos da elite está Madeliene White (Jodie Foster), uma elegante figura que utiliza todos os favores a seu alcance – inclusive os do prefeito – para cumprir sua meta.
Todos os clichês do gênero estão lá: furgões disfarçados, bandidos mascarados, autoridades que se desentendem, reviravoltas e um mocinho em ponto baixo da carreira que precisa dar a volta por cima. Mas Lee é esperto o suficiente para deixá-los em segundo plano e destacar o que realmente lhe interessa: mostrar o caldeirão étnico que hoje é a cidade de Nova York, opção reforçada pelo tema musical de seu colaborador habitual Terence Blanchard que abre e fecha o filme. Dos personagens secundários aos principais, todos representam fatias dessa Babel moderna. Questionado sobre o bandido que lhe intimou na porta do banco, um policial responde que “tem algum sotaque estrangeiro”. Em outro momento, precisando com urgência de alguém para traduzir uma gravação em armênio, o personagem de Washington não se faz de rogado e coloca a gravação num auto-falante e sai perguntando na rua se alguém reconhece a língua. Obviamente, alguém diz que sim. As próprias locações escolhidas por Spike Lee fogem do trivial nova-iorquino. Logo no início, temos uma seqüência em que o furgão vai recolhendo cada um dos assaltantes para levá-los até o local do crime, passando por paisagens que não costumam aparecer nos cartões postais de Manhattan.
A relevância do trabalho de Lee está em não ignorar os aspectos da realidade em favor da ficção e do entretenimento, e é por isso que consegue, contrariando a cartilha hollywoodiana, dar cabo de um filme de ação sem glorificar a violência. Mas o faz sem nunca ser panfletário nem menosprezar a história que tem para contar.
Texturas como estas mostram que Spike Lee está longe de perder a verve de seu cinema e de se deixar absorver pela indústria no que esta tem de mais padronizada (a produção de O PLANO PERFEITO é da Imagine, de Brian Grazer e Ron Howard, símbolos da carpintaria padrão de Hollywood). Mesmo na condução de um thriller que pisa em lugares comuns como este, deixa claro que, com aliados como humor e um elenco impecável, é capaz de ir contra a mesmice reinante e manter a consistência autoral de seu trabalho.
nota:

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