ULTIMATO BOURNE, O (por Kas)

THE BOURNE ULTIMATUM, EUA, 2007
De Paul Greengrass
Com Matt Damon, Julia Stiles, David Strathairn, Scott Glenn, Paddy Considine, Edgar Ramirez, Albert Finney, Joan Allen
“Modos extremos estão de volta novamente”, entoa Moby na canção “Extreme Ways”, que fecha O ULTIMATO BOURNE, como fazia também com os demais filmes da série. Pois é lançando mão de modos extremos que o agente Jason Bourne finalmente irá alcançar o que tanto almejou ao longo dessa (por enquanto) trilogia, retirada dos romances de Robert Ludlum. Bourne, ao contrário de outros heróis de ação e espionagem, não quer salvar o mundo e nem provar sua inocência. Quer apenas sua identidade de volta, ou uma alma para preencher o corpo mecânico e letal que usa contra seus inimigos.
Essa busca existencial, e um fiapo de história, ligam os três filmes da lucrativa série, a franquia mais poderosa da Universal desde que fecharam para reforma o parque dos dinossauros jurássicos. Uma série de ação guiada por existencialismo? É o que torna Jason Bourne (ou seja lá qual for seu verdadeiro nome) diferente de outros colegas de profissão e matança, como os bem menos atormentados James Bond e Jack Bauer. E é o que qualifica o trabalho primoroso do diretor Paul Greengrass (e de Doug Liman, que realizou o primeiro filme e que permanece creditado nos dois seguintes como produtor executivo) e do roteirista Tony Gilroy na condução da trilogia. Ambos entendem a dinâmica do filme de ação e do movimento cinematográfico, e sabem como fazer um filme inteligente sem parecer cerebral e sem contar nada particularmente profundo ou inédito sobre a ordem política mundial. Ação e movimento, para Greengrass, existem para algo mais além de tirar o fôlego da platéia. Compõem a própria mola mestra do cinema do diretor britânico. O excesso de cortes e câmera trepidante não esvaziam a experiência, como o fazem nas mãos de um diretor inábil como Michael Bay, graças à habilidade ímpar de Greengrass em unificar os mesmos cortes e chacoalhados em um mesmo movimento contínuo que conduz o olhar do público pela narrativa. É a ação, solicitada pela trama e pelo gênero, aplicada à própria narrativa cinematográfica.
É de ação que se faz a personalidade desmemoriada de Bourne. É a ação que o define, já que não tem lembranças de uma vida pregressa que lhe permitam elaborar um projeto de futuro. Bourne simplesmente age, às vezes reage, com um objetivo muito simples e bem definido. Sua linguagem corporal é tão mais importante que suas expressões faciais, e é por isso que Matt Damon se parece tanto com o personagem. Porque o agente ganhou antes as feições de Richard Chamberlain, numa produção para a TV datada dos anos 80. Mas é com o semblante inalterável de Damon que Bourne entra no panteão dos grandes espiões do cinema. Damon torna crível até os feitos quase sobrenaturais do personagem, e para isso ajuda o estilo de documentário anabolizado que Greengrass vem aperfeiçoando desde DOMINGO SANGRENTO (Urso de Ouro em Berlim), passando por A SUPREMACIA BOURNE e culminando em VÔO UNITED 93 (que lhe rendeu indicação ao Oscar). Se existe algum comentário político nas atitudes condenáveis da CIA, NSA ou qualquer órgão americano que ameace a busca existencial de Bourne, este não se deixa intrometer no que realmente interessa: a ação. E a ação de O ULTIMATO BOURNE é mais do que empolgante, é extrema.
Nota: ****
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A GALÁXIA » BOURNE NÃO PERDOA NADA! disse,
26 de Agosto de 2007 @ 02:24
[…] Estranhos tempos estes, quando diretores de currículo voltado para questões mais políticas e atuais realizam os melhores blockbusters do ano. Como bem lembrou o Gelogurte, o novato em longas David Yates, de extensa carreira na TV britânica, não só surpreendeu como também fez o melhor HARRY POTTER até agora, ao lado da incursão de Alfonso Cuarón (outro com um pé no cinema “de arte”). E agora Paul Greengrass repete a mágica e entrega O ULTIMATO BOURNE, um filme de ação inteligente e empolgante, de deixar Michael Bay e Len Wiseman pensando seriamente em abandonar a profissão (o que não seria nada mal). Greengrass, que já tinha se provado um confiável (mas não previsível) direotr de pimeiro time com A SUPREMACIA BOURNE, revela com a terceira aventura do agente desmemoriado vivido por Matt Damon que é um sábio aprendiz do mestre John Frankenheimer de SOB O DOMÍNIO DO MAL e OPERAÇÃO FRANÇA 2. Greengrass veio da escola do documentário, e sabe bem aplicar sua experiência para tornar crível as maiores perípécias fílmicas. Não é raro eu e o Gelogurte concordarmos sobre um filme, mas neste caso acho que você tem tudo para compartilhar também a nossa opinião. Clique aqui para conferir a resenha da criatura e aqui para ler a minha! […]