12 TRABALHOS, OS (por Kas)

12 trabalhos - 12 trabalhos

Brasil, 2007
De Ricardo Elias
Com Sidney Santiago, Flavio Bauraqui, Vera Mancini, Vanessa Giácomo, Francisca Queiroz, Cynthia Falabella, Cacá Amaral

Apesar das referências diretas a ACOSSADO de Jean-Luc Godard e OS INCOMPREENDIDOS de François Truffaut, é com o cinema de Eric Rohmer que OS 12 TRABALHOS, o segundo longa de Ricardo Elias, se aproxima. Isto já era algo perceptível no filme de estréia do cineasta paulista, DE PASSAGEM (2003), que conquistou diversos prêmios no Festival de Gramado. Como a obra de Rohmer, os filmes de Elias não lançam mão de recursos elaborados de filmagem ou de inovações de linguagem, preferindo um registro mais simples e contido, que foca no ser humano, naquele que protagoniza a obra e nos que o cercam e dão cor e traços de realidade ao seu universo. Considerando que a tendência atual do cinema mundial em geral, e do brasileiro em particular, é a de chamar a atenção para a forma antes do conteúdo, é um alívio que jovens cineastas como Elias busque este tipo de registro menos centralizador e narcisista. A idéia não é mostrar o que o diretor é capaz de fazer com a câmera, e sim o que a câmera consegue captar da humanidade de seus personagens.

O título OS 12 TRABALHOS refere-se às tarefas que Heracles (o estreante Sidney Santiago) tem de cumprir em seu primeiro dia como motoboy em São Paulo. Uma coisa leva à outra e logo Heracles, recém-saído de uma temporada na Febem, tem de passar por provas, senão hercúleas como sugere a referência mitológica (Heracles, ou Hercules, filho de Zeus com uma humana, também teve de encarar 12 trabalhos para se provar digno), pelo menos desafiadoras o bastante para que o jovem tenha de abandonar sua passividade e utilizar-se de iniciativa para driblar os obstáculos que se acumulam em seu caminho. Que nada mais são que situações corriqueiras, presentes no dia a dia de qualquer um, independente da cor da pele ou da condição social.

Isso mostra a maturidade de Elias. Ao abordar a trajetória de um negro de classe baixa que quer retomar seu rumo após erros de julgamento na adolescência, o diretor evita clichês melodramáticos, assim como comentários óbvios sobre preconceito. Porque na maior parte das vezes, Heracles se relaciona com outros personagens pertencentes à mesma origem social que a sua, como seu primo Jonas (Flavio Bauraqui), responsável pela indicação de Heracles ao emprego de motoboy. A câmera simplesmente acompanha o protagonista pelas ruas de São Paulo, enquanto este tenta evitar qualquer complicação que possa surgir que o impeça de conseguir o emprego. O deslocamento de Heracles dos que o cercam é visível. Sabemos que o garoto também é “artista”, nas palavras de um de seus colegas de profissão, pelos seus desenhos e histórias em quadrinhos presentes no caderno que sempre leva consigo. Esta alma poética remete diretamente à face divina do personagem, enquanto seus erros e a forma como os encara ou os contorna representa seu lado humano.

De seu filme de estréia até este segundo longa, Ricardo Elias mostra uma clara evolução como cineasta, mais seguro e consciente de sua proposta. Algumas das mesmas falhas que apresentou em DE PASSAGEM retornam em OS 12 TRABALHOS, só que estas perdem espaço e intensidade para as qualidades também reincidentes, felizmente realçadas. Como no filme anterior, algumas passagens soam amadoras e o elenco coadjuvante convence mais que o ator principal. Mas se a tragédia que surge no clímax de ambas as obras parecia forçada em DE PASSAGEM, esta está bem mais integrada ao estilo e à trama de OS 12 TRABALHOS. Evolução bem vinda, já que mantém a sinceridade da estréia.

Nota: ***

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1 Comentário »

  1. A GALÁXIA » RESENHA EM DOSE TRIPLA disse,

    16 de Abril de 2007 @ 18:03

    […] […]

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