MELHORES DE 2006 POR KAS - 1ª PARTE
Fazer a lista de melhores do ano é um suplício, pois a própria dinâmica da coisa já abre todo tipo de caminho para injustiças. Como comparar um filme com o outro? Como julgar o melhor sem ter visto todos? Quais critérios aplicar? O que pesa mais, a análise criteriosa ou o gosto pessoal? Sem falar na impossibilidade de rever os títulos em questão, por pura falta de tempo. Nem digo todos eles, mas nem mesmo os que você mais gostou. E quanto aos que você deixou passar, por um motivo ou outro, o que causa uma tremenda angústia?
Por outro lado, este processo é também extremamente prazeiroso. Só de sentar e selecionar aqueles filmes que você curtiu, relembrar as emoções sentidas, o impacto causado - e este foi um ano particularmente bom para quem gosta de cinema. Duro é ter de lidar com a vontade imensa de rever todos imediatamente e sentir tudo novamente, quase como uma droga. O que pretendo fazer à medida em que o tempo permitir, já que nessa altura grande parte dos filmes já saiu em DVD e grande parte dessa grande parte já me espera aqui no Gabinete.
Vamos então à lista. Decidi quebrá-la em quatro partes, começando por aqueles títulos que, por um motivo ou outro, não pude conferir ainda. Alguns são filmes badalados e muito elogiados por críticos e pessoas nas quais confio. Outros são de diretores que me interessam. Cada um deles poderia eventualmente fazer parte da lista final mas infelizmente serão apenas citados aqui como curiosidades e lacunas que em breve serão preenchidas.
O ARCO de Kim Ki Duk
ÁRIDO MOVIE de Lírio Ferreira
BENS CONFISCADOS de Carlos Reichenbach
BUBBLE de Steven Soderbergh
A CASA DO LAGO de Alejandro Agresti
CLUBE DA LUA de Juan José Campanella
O CORTE de Costa-Gavras
A CRIANÇA de Jean-Pierre e Luc Dardenne
CRIME DELICADO de Beto Brant
EU ME LEMBRO de Edgard Navarro
FONTE DA VIDA de Darren Aronofsky
A GRANDE VIAGEM de Ismael Ferroukhi
O HOMEM URSO de Werner Herzog
OBRIGADO POR FUMAR de Jason Reitman
REIS E RAINHA de Arnauld Desplechin
O SABOR DA MELANCIA de Tsai Ming-Liang
O SAMURAI DO ENTARDECER de Yoji Yamada
SOLDADO ANÔNIMO de Sam Mendes
UMA VERDADE INCONVENIENTE de Davis Guggenheim
O ÚLTIMO MITTERRAND de Robert Guédiguian
Nessa segunda parte, seleciono algumas indicações pessoais de filmes que curti bastante, apesar de em nenhum momento terem sido cogitados para entrarem entre os melhores. Mas isso não depõe contra eles, pelo contrário. O único motivo pra isso ter acontecido é que eu gostei mais dos outros. Simples assim. São todas obras de qualidade, que com certeza tem lugar garantido aqui no Gabinete. Em ordem alfabética:
O ALBERGUE de Eli Roth
Um retorno ao sadismo e à sanguinolência dos filmes de tortura da década de 70, esse segundo longa de Roth comprova o talento do moço, após a estréia promissora com CABANA DO INFERNO. A nudez gratuita é um bônus mais do que bem vindo para compensar tanta mutilação.
AMANTES CONSTANTES de Philippe Garrel
Uma imersão completa na França pós-1968, realizada por um fruto daquela época. É quase uma sequência do maravilhoso OS SONHADORES de Bertolucci, só que mostrando o outro lado da moeda, onde os sonhos se transformam em desilusão e o romantismo cede espaço à apatia.
ÀS CINCO DA TARDE de Samira Makhmalbaf
A filha de Mohsen Makhmalbaf adapta um roteiro do próprio pai nesse primeiro filme realizado no Afeganistão pós-Talibã. Um contundente retrato da condição feminina dentro de um regime radical e autoritário.
BOA NOITE E BOA SORTE de George Clooney
De novo Cary Grant a cineasta de respeito. Falta o que para Clooney se tornar o homem mais invejado do mundo? Talvez namorar com a Gisele Bundchen. Adoro a estréia de Clooney na direção, CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA, e é surpreendente como ele muda de tom nesse filme seguinte, que recupera o look e a atmosfera das produções televisivas da era abordada.
BONECAS RUSSAS de Cédric Klapisch
Sequência ainda superior ao cult dos mochileiros ALBERGUE ESPANHOL, mostrando os personagens daquele filme alguns anos depois, um pouco mais maduros, mas ainda lidando com as agruras do mundo globalizado.
CAMINHO PARA GUANTANAMO de Michael Winterbottom e Mat Whitecross
Um retrato chocante dos dejetos da guerra contra o terrorismo, mostrando a sujeira jogada pelo Governo Bush para debaixo do tapete. O prolífico Winterbottom mistura completamente o registro documental com a reconstituição dos eventos retratados, a ponto de atingir uma consistência única.
16 QUADRAS de Richard Donner
Depois do insosso LINHA DO TEMPO, Richard Donner mostra que ainda não é hora de se aposentar, com esse thriller policial de primeira linha, que só peca pelo final lacrimoso. Mas até chegar lá, mantém o ritmo nervoso e intenso dos policiais dos anos 70. Traz também aquela que é talvez a melhor interpretação de Bruce Willis.
EM SEGREDO de Jasmila Zbanic
O vencedor do Urso de Ouro em Berlim se passa na Sarajevo do pós-guerra, onde os homens foram em grande parte mortos durante o conflito, deixando para trás viúvas e filhas em condições precárias de sobrevivência.
FAMÍLIA RODANTE de Pablo Trapero
Quem curtiu o divertido PEQUENA MISS SUNSHINE não pode deixar de conhecer este precurssor argentino, que também aborda o microcosmo de uma família a partir da viagem da mesma em um trailer aos pedaços. É mais sério que o filme americano, mas também igualmente humano.
FREE ZONE de Amos Gitai
Três mulheres de diferentes nacionalidades - uma americana, uma palestina e uma israelense - se cruzam na fronteira entre Israel e a Jordânia, numa zona franca onde povos inimigos negociam entre si. O cineasta israelense Gitai extrai deste encontro um comentário sobre a incompreensão e uma interpretação primorosa de Hanna Laslo como a israelense, e de Natalie Portman, que tem um momento impressionante, logo no longo plano inicial.
OS INFILTRADOS de Martin Scorsese
Esta refilmagem de CONFLITOS INTERNOS faz bonito em comparação com o original e tem a carpintaria impecável característica do diretor, um dos mais bem narrados de sua carreira. Falta porém um pouco das obsessões e da força motriz que tornavam seus imperfeitos GANGUES DE NOVA YORK e O AVIADOR filmes tão fascinantes. Um Scorsese à paisana.
A MÁQUINA de João Falcão
Injusto fracasso de público, é na verdade um filme bem divertido e simpático, com uma ótima e apaixonante mocinha vivida por Mariana Ximenes. Uma mistura curiosa de romance, humor e ficção científica, capturada com uma igualmente curiosa diversidade de suportes.
ORGULHO E PRECONCEITO de Joe Wright
Desde que Ang Lee estabeleceu um altíssimo padrão com RAZÃO E SENSIBILIDADE, não se via uma adaptação de Jane Austen tão cheia de vida e invenção. A gracinha Keira Knightley lidera um excelente elenco de coadjuvantes, todos capitaneados pelo talentoso diretor de primeira viagem.
PARADISE NOW de Hany Abu-Assad
O complemento ideal para o MUNIQUE de Spielberg, apresentando o outro lado da questão. A criação de um terrorista é mostrada didaticamente, sem ignorar as crises morais e éticas dos mesmos.
O PLANO PERFEITO de Spike Lee
O filme de roubo do ano, com Spike Lee se divertindo tanto quanto Scorsese em OS INFILTRADOS. Denzel Washington faz o policial encarregado com a conhecida competência, mas Clive Owen, como o líder do bando, rouba o filme inteiro, literalmente.
POR ÁGUA ABAIXO de David Bowers e Sam Fell
A segunda melhor animação do ano, ou pelo menos a segunda mais divertida, marca a primeira experiência da Aardmann com animação digital. Não tem o mesmo charme de suas criações em stop motion, mas o humor inglês faz toda a diferença.
O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN de Ang Lee
O comovente relato de Ang Lee para um romance proibido, a relação homossexual que se estabelece entre dois vaqueiros no preconceituoso meio-oeste americano da década de 60. Pode não ser o melhor filme do cineasta mas traz estampada toda sua sensibilidade e inteligência.
SEPARADOS PELO CASAMENTO de Peyton Reed
Uma comédia romântica triste, que mostra aquilo que normalmente não ficamos sabendo num exemplar tradicional do gênero: o que acontece após o final feliz? Vaughn e Aniston tem verdadeira química, o que só torna mais lamentável a separação.
SRA. HENDERSON APRESENTA de Stephen Frears
Judi Dench pode exibir todo seu talento no papel título, o de uma milionária que utiliza espetáculos teatrais com muita nudez feminina para levantar a moral dos ingleses durante a 2ª Guerra. Mas o filme é do excelente Bob Hoskins, que faz o produtor dos shows.
SUPERMAN - O RETORNO de Bryan Singer
Vi esse filme pela primeira vez em Londres, numa sala IMAX 3D, na melhor das condições possíveis. A abordagem épica de Singer para o retorno do Homem de Aço, meu herói favorito, não pede menos que isso. Revendo a obra depois num cinema comum e em DVD, ficam claros os pontos onde Singer pecou, mas fica também mais fácil relevá-los em favor de seus grandes acertos. Em meio a toda pirotecnia típica de um blockbuster de verão, o diretor deu um enfoque intimista e pessoal para a relação pais e filhos e exacerbou a analogia bíblica já valorizada por Richard Donner em sua versão de 1978. Não é o que o público esperava do cineasta, mas tende a crescer a cada revisão e abre caminho para futuras sequências ainda mais vibrantes e grandiosas.
SYRIANA - A INDÚSTRIA DO PETRÓLEO de Stephen Gaghan
Várias histórias se conectam nesse retrato dos bastidores de uma poderosa indústria, que justifica (será?) guerras, traições e conspirações. Gaghan, o roteirista premiado de TRAFFIC, conduz tudo como se fosse um filme de espionagem, e dos bons.
A ÚLTIMA NOITE de Robert Altman
O canto de cisne do grande cineasta dos grandes elencos. É uma comovente despedida, ao mesmo tempo uma constatação da inevitabilidade da morte e uma celebração da vida. Como diz um dos personagens, “Ninguém lamenta a morte de um idoso“. Mal sabe ele a falta que Altman nos fará.
V DE VINGANÇA de James McTeigue
Uma surpreendente e tematicamente ousada adaptação dos quadrinhos de Alan Moore e David Lloyd, transferindo as referências políticas da era Thatcher para a atual conjuntura mundial. Mas, assim como o original, se preocupa na verdade em mostrar como uma sociedade totalitária cria uma reação terrorista. Falta unidade visual, mas conta com uma bela interpretação de Natalie Portman.
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