PARANÓIA (por Kas)

paranoia - paranoia

DISTURBIA, EUA, 2007
De D.J. Caruso
Com Shia LaBeouf, David Morse, Carrie-Anne Moss, Jose Pablo Cantillo, Matt Craven, Cathy Immordino, Sarah Roemer, Amanda Walsh, Kurt David Anderson, Aaron Yoo, Elyse Mirto, Dominic Daniel, Charles Carroll

Tinha tudo pra dar errado. Uma refilmagem (mal) disfarçada de JANELA INDISCRETA, voltada para o público adolescente, consumidor de gadgets modernos como celulares e câmeras digitais, por um diretor que até então não havia justificado muito sua escolha de profissão. Mas eis que, por algum motivo, PARANÓIA funciona. Algum motivo não, alguns. Existem diversas coisas para se gostar no filme de D.J. Caruso. Não que seja algo memorável, ou sequer arranhe a classe do filme de Hitchcock. Mas entrega o que grande parte dos lançamentos da temporada voltados para o mesmo público-alvo falharam em conseguir: duas horas de diversão honesta.

Após se desentender fisicamente com seu professor de espanhol, o jovem Kale recebe a pena de seis meses de prisão domiciliar, não podendo se afastar mais de 30 metros do lar sob ameaça de ser encarcerado. Logo o tédio domina e Kale acaba por arrumar uma diversão pouco convencional: vigiar de sua janela a vida dos vizinhos. É como um reality show ao vivo, explica ao seu melhor amigo. As coisas ficam mais interessantes para o rapaz quando uma deslumbrante garota se muda para a casa ao lado. E ficam mais perigosas quando Kale suspeita que outro de seus vizinhos possa muito bem ser um procurado serial killer.

Quem viu o trailer, viu tudo isso. Ou quase tudo. Porque PARANÓIA funciona é de forma incidental e não pela trama clichê. Primeiro, pela presença de Shia LaBeouf como Kale. LaBeouf é figura fácil na mídia atualmente, graças ao estrondoso sucesso de TRANSFORMERS, que lhe rendeu convite do próprio Spielberg para co-estrelar o novo INDIANA JONES ao lado de Harrison Ford. Mas além de ser o astro do momento, LaBeouf é bom de verdade. Possui talento e a mesma qualidade de rapaz comum que outros astros, como o já citado Ford, possuíam. LaBeouf cria empatia imediata com o público, graças ao timing perfeito de suas reações, cômicas ou dramáticas, aos eventos ao redor. Como naquela que é a melhor seqüência do filme, onde tem de explicar à sua vizinha (a igualmente empática Sarah Roemer, de O GRITO 2) as razões por ter estragado a festa que a garota estava dando na casa dela. São momentos como esse, e não os de suspense, que justificam a experiência de ver PARANÓIA.

Porque o suspense de PARANÓIA é genérico e corresponde aos momentos em que o filme cai no lugar comum, como no final desnecessariamente sanguinolento. Mas até lá, Caruso (dos medíocres ROUBANDO VIDAS e TUDO POR DINHEIRO) conduz com segurança o ritmo e a narrativa, priorizando sempre os eventos a partir do olhar de Kale, só traindo esta proposta ao mostrar flashes de um assassinato enquanto o garoto e a mocinha, alheios ao ocorrido, se encontram aos beijos no quarto dele.

Mas PARANÓIA tem ainda outro nível de leitura, a que justifica seu título. Afinal, o assunto mesmo é a crescente vigilância sob a qual vivemos, sempre em nome da segurança. Aqui, não há discussões morais, como em A FRATERNIDADE É VERMELHA. A falta de privacidade é algo necessário, parece dizer o filme. Pode-se até concordar com isso, mas cuidado! O vigiado pode ser você.

Nota: ***

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