V DE VINGANÇA (por Gelogurte)
V FOR VENDETTA, EUA, 2006
De James McTeigue
Com Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, Stephen Fry e John Hurt
Não é segredo que V DE VINGANÇA nunca foi a obra prima o que os fãs de quadrinhos prometem ser. Em mais de uma ocasião, o próprio Alan Moore fez duras críticas ao seu trabalho e em sua atual edição encadernada em circulação nos EUA, pede desculpas várias vezes por fatores que considera problemáticos, até mesmo ingênuos. Mesmo assim, é uma boa leitura, muito mais interessante do que sua versão cinematográfica.
O que separa um governo fascista de um homem que recorre à violência para combatê-lo? Talvez seja a esse ponto que V DE VINGANÇA tenta chegar, mas não consegue. De acordo com as frases finais de Natalie Portman e todas as eloqüências de Hugo Weaving, o terrorista conhecido simplesmente como V não é nem mesmo um homem, mas uma idéia que representa toda uma nação. Isso perdoaria o fato de que V é então muito semelhante à George Bush no sentido de que ele está pronto para explodir quem ameaça a sua liberdade? Claro, sem entrar no mérito de que há pelo menos mil e um fatores como dinheiro, petróleo e armas que Georgie Jr. quer proteger antes da liberdade de seus fellow americans.
É por isso que nenhum tipo de radicalismo realmente funciona, uma proposta que MUNIQUE, de Steven Spielberg, explicita maravilhosamente. Porque a corda sempre parte para o lado mais fraco e quem realmente paga o preço raramente é a instituição ou organização ou mesmo a pessoa que se quer atingir. Esse é um dos motivos pelos quais V DE VINGANÇA simplesmente não funciona como um filme politizado. E lá pela metade de seus longos 132 minutos, que dão a impressão de ser ainda mais longos, ele parece até entender isso e se concentra em ser, basicamente, o que seu título propõe: um filme sobre vingança. Se V, mesmo tendo sua agenda secreta queria mesmo era justiça, como explicita logo no início da película, devia ter entre a sua coleção de antiguidades uma cópia de BATMAN BEGINS, onde David Goyer e Christopher Nolan conseguem, com muito mais classe, diferenciar as duas coisas.
Apesar de tudo, o filme tem suas qualidades e menos “wachowskimos” do que seus trailers aparentam. Eu honestamente esperava assistir um “M de Matrix” mas o diretor James McTeigue tenta se afastar dos maneirismos de seus produtores e cede em apenas uma ou outra cena de ação ou em uma embaraçosa mas rápida tomada de Natalie Portman na chuva. O clima constantemente sério também prejudica o ritmo pois mesmo em momentos que poderiam ter uma certa atmosfera de comédia ou pelo menos de leveza, são dirigidos de forma pesada. É a perfeita discussão de MELINDA & MELINDA: a vida é uma tragédia recheada de pequenos momentos de comédia ou é leve com ocasionais desastres? Aqui, é uma tragédia com momentos ainda maiores de crise.
No final das contas, V DE VINGANÇA perde por ficar em cima do muro. É um filme de ação sério ou um filme sério com cenas de ação? E em nenhuma das opções ele realmente funciona. Mais um para a lista de obras de Alan Moore, mesmo esta sendo um tanto supervalorizada, prejudicada pelos estúdios.
NOTA:
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8 Comentários »
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danielle lima e souza disse,
30 de Maio de 2007 @ 18:29
gostaria de ler os gibis do V.
Gelogurte disse,
30 de Maio de 2007 @ 18:40
Danielle, você está com sorte.
Na época do lançamento do filme, eles foram relançados no Brasil.
Em algumas livrarias especializadas você encontra.
Caso more em cidade muito pequena, você pode procurar no site da Devir (www.devir.com.br) ou na Leitura (www.leitura.com.br).
nayara disse,
28 de Junho de 2007 @ 22:37
acho q qm esta em cima do muro é vc….
eu nao interpretei o filme dessa forma, pelo contrario nao achei V alguém que está pronto para explodir quem ameaça a sua liberdade, pelo contrario, “ele” luta para ter liberdade, para andar na rua a hora q bem entende para comer e ser quem ele quer…e não é ELE, o filme fala na voz de uma nação com medo de lutar, com medo do sofrimento e retraida por apenas um homem, V é apenas alguém q vai desencadear uma série de reações, exatamente como no dominó. Ele é o curinga da história, alguem diferente, alguém q através da arte, literatura e conhecimento nao se conforma com a opressão, corrupção ou mentiras.
eu achei o filme uma alusão ao pós-11 de setembro, á guerra do Iraque, e uma bela critica ao goverdo do Bush.
e não precisa de muito para entender….
Gelogurte disse,
29 de Junho de 2007 @ 09:49
Olá, Nayara!
Eu gostaria de saber: que governo no mundo não é opressor, corrupto ou mentiroso? Às vezes com a melhor das intenções, às vezes simplesmente para manter o próprio governo no poder. O meu problema com V DE VINGANÇA vai um pouquinho além da simplicidade a que foi reduzida a obra de Alan Moore. Afinal, complica em duas horas de projeção, construir um personagem que lute pelo povo sem prejudicar o povo. Afinal, a polícia não é composta por cidadãos? O exército? São instrumentos do governo, claro, mas no filme são simplesmente reduzidos a vilões. Isso é natural do cinema. Mocinho e bandido. Quantas vezes vimos os westerns americanos colocarem os índios como os vilões, pura e simples? Agora, fazer isso em um filme politizado é um pouquinho mais complicado.
Dizer que Codinome V é uma peça do dominó é a mesma coisa que dizer que Bin Laden tinha razão em armar o 11/9. É uma questão de ponto de vista, claro. Afinal, por quantos anos os EUA aterrorizaram o mundo? Mas nunca vi sentido em se tentar consertar um erro com outro. Concordo que, às vezes, medidas radicais são necessárias.
Agora, V DE VINGANÇA começou a ser publicado na Inglaterra em 1981/1982, no auge do governo da então primeira ministra Margareth Thatcher, a quem a obra também faz alusão (além de Hitler, Mussolini e outros ditadores passados). Se George W. Bush ainda segue uma linha de governo completamente ultrapassada, já são outros quinhentos. Isso é legal: algo escrito 26 anos atrás ainda é super atual. Mas pode-se dizer que é uma alusão a muitos outros governos antes do atual governo americano.
Um abraço e continue questionando sempre!
Paulo Antonio disse,
1 de Agosto de 2007 @ 10:37
Bom, primeiro, quadrinho é quadrinho e filme é filme. Estamos entendidos nisso, espero. Segundo: Ou vc não leu os quadrinhos ou não viu o filme, ou não fez nenhuma das coisas. Se Alan More pediu desculpas, o fez antes de chegar o sucesso de V algum tempo depois. AINDA BEM QUE VC NÃO DISSE QUE NINGUÉM GOSTOU DO FILME. Eu gostei muito. Bom, meio sem lógica? Igênuo? - Vem cá, parceiro…existe igenuidade maior que um E.T. sair voando de bicicleta a luz da lua? Ou um cara com esqueleto de adamantium com capacidade de regeneração a meter inveja em rabo de lagartixa? - Isso é cinema, velho.
Gelogurte disse,
1 de Agosto de 2007 @ 11:29
Oi, Paulo!
Quadrinho é quadrinho, filme é filme. Estamos de pleno acordo. Concordo até com o próprio Alan Moore, que odeia ver suas obras passadas para a telona porque são mídias totalmente diferentes e que certos elementos sempre serão “perdidos na tradução”. Ao ler WATCHMEN isso fica ainda mais evidente.
Eu nunca diria que “ninguém gostou do filme” primeiro porque tem gosto pra tudo. Eu até gosto de V DE VINGANÇA. Quanto às desculpas do Moore, é muito comum o autor ter problemas com sua obra. Afinal, acho que o que faz um gênio é sua capacidade de ver além do que nós meros mortais vemos. Já dizia Bryan Singer, não que ele seja um gênio mas é um bom exemplo quando ele diz que um filme nunca está pronto. Chega uma hora que simplesmente temos que entregá-lo para lançamento. Mas que ele nunca está e espera nunca estar 100% satisfeito com um de seus filmes.
Agora, onde eu disse que o filme é sem lógica? Ou mesmo ingênuo? Eu não disse isso. Posso estar citando outras pessoas e mesmo assim, nem foi em relação ao filme. E um filme só tem que obedecer à sua própria lógica, ao seu próprio universo, o que é o caso dos X-MEN ou E.T., que você citou. Eu só acho a lógica de V DE VINGANÇA (o filme) meio simplista demais. Prefiro ver os dois lados da moeda. Ou será que todo o Brasil, por exemplo, foi contra a ditadura militar? E o Fernando Collor não está de volta à política? Mesmo com o impeachment, ainda tem gente que o apóia.
Mas como você mesmo disse, isso é cinema. E ainda bem que é. Porque se fosse realidade, estaríamos ferrados nas mãos dos George Bush e Bin Laden deste mundo… ou já não estamos?
Gledson disse,
2 de Agosto de 2007 @ 00:45
No filme V de Vingança, existe uma frase dita por “V” ao executar o padre, que diz”…E vesti-me com trapos roubados das escrituras, e me fiz passar por um anjo quando na verdade era um demônio” - por favor, gostaria de saber quem é o autor desta frase. (ou isto é produto do próprio roteirista?)
Gelogurte disse,
2 de Agosto de 2007 @ 10:17
“And thus I clothe my naked villainy / With old odd ends stolen forth from holy writ / And seem a saint when most I play the devil.”
William Shakespeare - Ricardo III, Ato 1, Cena 3