STARDUST - O MISTÉRIO DA ESTRELA (por Katchiannya)
STARDUST, Inglaterra/EUA, 2007
De Matthew Vaughn
Com Charlie Cox, Ian McKellen, Sienna Miller, Henry Cavill, Peter O’Toole, Rupert Everett, Michelle Pfeiffer, Claire Danes, Sarah Alexander, Joanna Scanlan, George Innes, Robert De Niro, Ricky Gervais
Quando cheguei na cabine de imprensa para conferir a adaptação de STARDUST - O MISTÉRIO DA ESTRELA, recebi a notícia de que assistiríamos uma versão dublada do filme, uma vez que as cópias que foram enviadas primeiramente era dubladas tendo em vista o público infantil pela chegada do Dia das Crianças.
Não consegui refrear uma expressão de espanto, e, ainda com o original literário de Neil Gaiman na cabeça, exclamei mais de uma vez: “Mas isso não é filme para crianças”.
De fato, quando se pensa no livro original, classificado como um conto de fadas para adultos, e magnificamente ilustrado por Charles Vess, fica difícil imaginar como uma história com elementos sombrios, e por vezes violentos, poderia ser concebido como uma história infantil.
O meu grande erro foi me esquecer que estaria diante de uma “adaptação”. Como o próprio nome diz, não é uma transposição literal do livro para as telas. E, reiterando novamente, o que eu vivo dizendo: cinema e literatura, apesar de pontos de convergência, são meios de expressão diferentes, com regras e gramáticas próprias.
Como uma adaptação, STARDUST se revela um ótimo filme. Talvez os fãs mais puristas de Neil Gaiman torçam um pouco o nariz, pois, levando-se em consideração a ampliação do público, os elementos mais sombrios e, talvez, consequentemente, mais polêmicos, foram amenizados, até mesmo o final do filme, ainda que fiel ao original, se tornou menos melancólico e mais próximo do “clássico” happy end.
Entretanto, a essência do livro permanece em quase todos os fotogramas projetados na tela, a ponto de o próprio Neil Gaiman afirmar ter ficado orgulhoso com o resultado final.
Em linhas gerais, STARDUST conta a história do jovem Tristan Thorne (Charlie Cox), morador da vila de Wall, circundada por um muro que separa o nosso mundo do mundo mágico de Stormhold. Um jovem simples, trabalhando como balconista, foi criado sozinho pelo pai nesta versão. Apaixonado por Victoria, ele faria qualquer coisa para obter o amor da moça, até mesmo atravessar o muro e pegar a estrela cadente que ambos viram caindo certa noite. Caso não consiga cumprir sua missão, Victoria se casará com outro.
O que Tristan não sabe é que ele não foi o primeiro morador de Wall a romper a barreira e adentrar no mundo mágico. Anos atrás, seu pai fizera a mesma coisa, e, de um encontro casual, em uma feira, com uma princesa aprisionada, Tristan foi concebido.
Tanto o livro de Gaiman quanto o filme seguem a estrutura básica do conto de fadas e do mito do herói, muito bem explanado no livro O HERÓI DE MIL FACES de Joseph Campbell. Tristan possui uma origem secreta e nobre, que se revela a ele, e sai em uma missão (quest), pela qual sofrerá uma mudança. Como o próprio filme explicita, ele deixa de ser adolescente para se tornar um homem. O simplório balconista de mercadinho se transforma em um príncipe corajoso e nobre.
A escolha de Charlie Cox para o papel não poderia ter sido mais acertada. Ele consegue transmitir ao mesmo tempo a inocência quase pueril do personagem, e a coragem e nobreza que está ainda submersa. Tristan é um herói de bom coração, entretanto, não é pedante ou paspalho, como muitos heróis com esse perfil são caracterizados.
Já Claire Danes deixa um pouco a desejar no papel da heroína. Yvaine, a estrela-cadente que Tristan foi buscar, é, originalmente ao mesmo tempo doce e determinada. Algo como um “chocolate com pimenta”. Ironicamente, Danes, cujo papel mais famoso é o de Julieta, na versão do Baz Lurhmann, não consegue passar exatamente o lado doce da personagem, o que, ocasionalmente, diminui a química entre o par romântico. Entretanto, não chega a ser algo grave a ponto de prejudicar o filme.
Entre os atores veteranos, Robert DeNiro se sobressai como o capitão Shakespeare, dando ao filme um tom de comédia que não existe no original, mas que contribui para agilizar a narrativa como a proposta do filme pede.
Michelle Pfeiffer, como a bruxa Lamia, também se destaca no elenco, ela consegue ser simultaneamente bela, horrível, perversa e causar igual admiração e repulsa no expectador.
O tom de conto de fadas permeia todo o filme, não apenas por seu visual, praticamente decalcado das ilustrações de Charles Vess, mas pela interessante sacada de se usar a narrativa em off para abrir e encerrar o filme, dando, de cara, ao expectador o tom daquilo que verá na tela.
Entretanto, um dos grandes defeitos do filme está exatamente em sua ânsia em dizer “sou um filme de fantasia”. Desde O SENHOR DOS ANÉIS, parece que se tornou uma regra implícita que todo filme de fantasia deve ter um ar de grande épico, com grandes panorâmicas, trilha sonora pomposa, tudo que remeta a uma grandiosidade narrativa. Isso, certamente, funciona em O SENHOR DOS ANÉIS porque a história escrita por Tolkien assim pedia. Mas não funcionou em CRÔNICAS DE NÁRNIA e tampouco funcionou em STARDUST.
Ao contrário, são as seqüências que insistem nessa grandiosidade que enfraquecem o filme e impedem um envolvimento maior na história. A história de STARDUST é basicamente a história do amor que nasce entre Yvaine e Tristan, e, exatamente por isso, pedia um tratamento mais intimista, mais próximo dos filmes fantasia dos anos oitenta, como O FEITIÇO DE ÁQUILA (estrelado por Michelle Pfeiffer), A LENDA ou LABIRINTO.
Em suma, STARDUST é um filme simpático e merece ser visto, mas de forma descompromissada, entretanto, falta a ele um toque a mais, aquele tom de poesia e enternecimento presente nos verdadeiros contos de fadas.
Nota: *** ½
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3 Comentários »
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A GALÁXIA » SÓ MESMO NEIL GAIMAN PARA TRAZER A KATCHIANNYA DE VOLTA! disse,
13 de Outubro de 2007 @ 14:56
[…] […]
A GALÁXIA » A BÚSSOLA DE OURO COMEÇA A REVELAR SEUS ENCANTOS disse,
16 de Outubro de 2007 @ 10:32
[…] A New Line (e a PlayArte) deve estar mais do que satisfeita. Tanto que, apostando no sucesso do filme, já optou por deixar os três últimos capítulos do primeiro livro para funcionarem como abertura do segundo filme. E como o trailer deixa vislumbrar, estas cenas já estavam prontas e praticamente finalizadas. Se A BÚSSOLA DE OURO afundar nas bilheterias, como fantasias recentes como STARDUST e THE SEEKER - THE DARK IS RISING fizeram, aí teremos um extra de luxo em DVD. […]
Carla Hadad disse,
21 de Novembro de 2007 @ 09:26
Eu adorei esse filme, não achei tantos defeitos, pelos contrário, vi muitas qualidades, desde o Senhor dos Anéis não via um filme me tirar o fôlego… Apesar de não ter lido o livro, coisa que fiquei tentada a fazer, acho que ele merece mais do que apenas 3 estrelas e 1/2.