SUPERMAN - O RETORNO (por Gelogurte)

superman returns poster - superman returns poster

EUA, 2006
De Bryan Singer
Com Brandon Routh, Kate Bosworth, Kevin Spacey, James Marsden, Frank Langella, Eva Marie Saint, Sam Huntington

Talvez apenas por ser protegido de Richard Donner, diretor do SUPERMAN, O FILME de 1978, Bryan Singer tenha resolvido fazer uma semi-continuação ao invés de recontar toda a origem do personagem. Mas é inegável que Singer acertou em sua decisão. Os temas mais interessantes do filme original, como a relação metafórica entre o herói e Jesus Cristo (o filho único enviado à Terra para iluminar o caminho da humanidade) ou a simples história do filho que tem que sair de casa para descobrir o mundo, estão todos presentes novamente nesta empreitada de 260 milhões de dólares.

Depois de cinco anos viajando pelo espaço em busca de respostas sobre o planeta Krypton, algo que nos é informado apenas por um breve texto na tela, Superman retorna para a Terra, seu lar adotivo, para encontrar um mundo novo. Sua amada Lois Lane teve um filho com seu atual noivo, Richard White, sobrinho do editor chefe do Planeta Diário e competente jornalista internacional. Para piorar a situação, ela ganha o prêmio Pulitzer por um artigo com o título “Por que o mundo não precisa do Superman”. Já os planos maquiavélicos de Lex Luthor são, como no primeiro filme, o ponto fraco da história, mesmo abrindo possibilidades para cenas de ação magníficas.

Em mais uma decisão acertada, Singer percebeu que não poderia trazer uma nova música tema para o filme, pedindo ao seu velho colaborador e camarada John Ottman que fizesse uma trilha sonora com elementos da trilha original de John Williams. Afinal, como diz o diretor Richard Donner, nos três famosos acordes de Williams podemos fechar os olhos e ouvir, na música, a palavra “Superman”.

O elenco também é afiado. Brandon Routh no papel do Homem de Aço consegue, além de trazer grandes semelhanças com Christopher Reeve, fazer o personagem um pouco seu. Como Clark Kent ele é um pouco menos caricato do que o de Reeves, o que é mais facilmente aceito para uma nova geração mais cínica de espectadores. Kate Bosworth é talvez a melhor Lois Lane que já apareceu, seja nas telonas ou na televisão. Kevin Spacey faz o que pode com um Luthor pouco inspirado. As surpresas ficam mesmo com o resto do pessoal do planeta diário. James Marsden e Frank Langella como Richard e Perry White impressionam. Principalmente a mudança de tom e ânimo em Langella após o retorno do herói.

Routh pode até parecer, em seus 26 anos, um pouco jovem demais para o papel já que o estúdio sempre quer alguém mais jovem para poder fazer filmes por longos anos. Só faltou maquia-lo um pouco melhor para esconder mais o seu bigode. Mas Christopher Reeve tinha apenas 24 anos ao ganhar o papel, e interpretou um homem de 30.

Ao contrário do Lex Luthor de Gene Hackman, temos neste novo filme um ex-presidiário. Ainda um megalomaníaco, um pouco “camp” em certos momentos, mas com doses de seriedade assustadoras. Em certo ponto, vemos um lado da personalidade de Luthor que nunca se manifestou nos filmes: seu lado preconceituoso e violento, em uma cena, filmada de forma brutal, que poderia muito bem se passar no pátio de uma prisão. Ou no apartamento de Jim Malone, o personagem de Sean Connery em OS INTOCÁVEIS.

Mas o que impede o filme de Singer de ser genial? De marcar a nova geração como marcou o público de quase 20 anos atrás? Para começar, Christopher Reeve. Por mais que Routh preencha bem as botas vermelhas, Reeve é o que deu alma ao herói e parece impregnado na mente dos fãs. Ele sabia voar, literalmente, já que era piloto. Mesmo com os efeitos da época parecendo obsoletos hoje, toda vez que víamos o Superman voando, tínhamos na tela Christopher Reeve, e não uma animação digital (algo em que a empresa responsável pelos efeitos visuais deste filme, Sony Imageworks, nunca foi das melhores). Ainda assim, Bryan Singer consegue tirar grande proveito de suas cenas de vôo, mostrando como tal coisa pode ser prazeirosa e, às vezes, vertiginosa.

Singer entende do riscado. Seu SUPERMAN – O RETORNO começa, depois de créditos iniciais inspiradíssimos, de forma simples e silenciosa. Sem grandes explosões ou estardalhaço. As ameaças e cenas de ação vão se tornando cada vez maiores à medida que o filme se aproxima de seu clímax, até que entra em um epílogo um pouco extenso demais, que tira aquela adrenalina pós-filme do público. Mas é certamente um avanço sobre suas competentes adaptações dos mutantes da Marvel, a franquia X-MEN que, se pecava em um ponto, era a falta de cenas realmente grandiosas como as que encontramos aqui.

Mas Singer tem a desvantagem de pegar a história “no meio do caminho”, ao invés de recontar toda a origem do personagem, como fazia parte dos planos dos diretores anteriores. Uma aposta arriscada, já que os filmes têm mais de 20 anos de idade. Mostra uma certa humildade em Singer em não mexer em um time que estava ganhando. Mesmo trazendo os temas certeiros de Donner, a aposta dele é em uma história de amor interrompida, coisa que a grande maioria da população conhece na carne e pode se identificar.

Algumas pessoas podem reclamar um pouco da falta de continuidade do filme. Onde SUPEMAN – O RETORNO se encaixa exatamente nos filmes do personagem? Isso nem o próprio Singer parece saber. Parece mais que a história se encaixa no que todo mundo acha que sabe sobre o personagem: que ele e Lois Lane se conhecem de longa data, que ela foi “namorada do herói” e não de Clark Kent e que ela não sabe sua identidade secreta. Contraria um pouco o desfecho de SUPERMAN II? Sim. Atrapalha o filme? Na verdade, não, já que o final de SUPERMAN II contém aquele péssimo beijo que apaga a memória de Lois Lane e ela não se lembra mais que ela sabe a identidade secreta do Homem de Aço. Quer dizer que o fato dela ter dormido com o herói também foi apagado? Isso não sabemos. Pela lógica de SUPERMAN – O RETORNO, aparentemente não. Ou simplesmente não é mencionado se ela lembra ou não.

O problema é que a nova geração de espectadores, que são a grande fatia dos freqüentadores do cinema americano, não assistiu aos filmes de Donner e Lester. Pena. Mal sabem eles o que estão perdendo. Mas Singer parece entender e usar isso. Algo como “O que esses garotos sabem? Que a Lois é namorada do Superman”. E pronto. É o que está no consciente geral e é essa cronologia que será usada. Justifica? Não muito, mas dá pra entender o porquê dele nunca afirmar que o filme é uma continuação literal mas sim que tenta ser fiel ao espírito dos filmes.

Esqueça os filmes! Esqueça as séries de TV, os desenhos… vá ver SUPERMAN - O RETORNO pelo que você se lembra de forma generalizada: que Lois era a namorada do Superman, que ela não sabe que ele é o Clark Kent e que o Lex Luthor sempre amargou uns tempos de cadeia por causa da interferência do Homem de Aço. E curta um grande filme!

NOTA:

bom 1 2 3 4 - bom 1 2 3 4

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7 Comentários »

  1. A GALÁXIA » NOVAS RESENHAS disse,

    11 de Agosto de 2006 @ 12:16

    […] SUPERMAN - O RETORNO (por Gelogurte) […]

  2. A GALÁXIA » EXTRAS DE “SUPERMAN - O RETORNO” COMEÇAM A SER REVELADOS disse,

    13 de Setembro de 2006 @ 22:42

    […] Aos poucos começam a surgir mais informações sobre a edição de SUPERMAN - O RETORNO que a Warner lançará em novembro. Ou as edições, como preferir. Teremos uma simples para locação, com apenas o filme em tela cheia e áudio Dolby Digital 5.1, e outra dupla para venda direta, com formato de tela em Widescreen Anamórfico 2.40:1 e áudio 5.1 no primeiro disco. Os extras ficaram para o segundo disco, e incluem cenas excluídas e um documentário de mais de 3 horas sobre a produção do filme. Ou seja, nada de comentários em áudio, tal qual o DVD de BATMAN BEGINS, o que nos faz imaginar uma futura “edição definitiva” no formato. Confira acima as imagens das capas das edições americanas - a simples e a dupla, ambas em wide. […]

  3. A GALÁXIA » AS APOSTAS PARA O OSCAR disse,

    6 de Dezembro de 2006 @ 10:49

    […] Ficaram de fora as apostas das divisões independentes dos estúdios, que devem favorecer o festejado BABEL de Alejandro Gonzales Iñarritú, além de produções estrangeiras como VOLVER de Pedro Almodovar (meu filme favorito do diretor, ao lado de FALE COM ELA), THE CURSE OF THE GOLDEN FLOWER de Zhang Yimou, O LABIRINTO DO FAUNO de Guillermo Del Toro. Achei curioso também a ausência de SUPERMAN: O RETORNO entre as apostas da Warner para as categorias técnicas como efeitos visuais, mixagem de som e edição de som, já que o filme de Bryan Singer foi o maior lançamento do estúdio em 2006. […]

  4. A GALÁXIA » E O OSCAR VAI PARA… disse,

    28 de Janeiro de 2007 @ 21:18

    […] EFEITOS VISUAIS: PIRATAS DO CARIBE - O BAÚ DA MORTE (John Knoll, Hal Hickel, Charles Gibson e Allen Hall) POSEIDON (Boyd Shermis, Kim Libreri, Chas Jarrett e John Frazier) SUPERMAN - O RETORNO (Mark Stetson, Neil Corbould, Richard R. Hoover e Jon Thum) […]

  5. A GALÁXIA » SUPER-HERÓIS DA WARNER PERDEM SEUS DIRETORES disse,

    6 de Fevereiro de 2007 @ 07:46

    […] BATMAN BEGINS fez sucesso mas poderia ter feito mais (principalmente por ser muito melhor que seus antecessores que faturaram mais). SUPERMAN - O RETORNO passou apertado nas bilheterias mas ainda assim garantiu uma continuação. Mas parece que a Warner Bros. ficou com inveja do clima mais leve (e bilheterias mais polpudas) de filmes como QUARTETO FANTÁSTICO na 20th Century Fox ou HOMEM-ARANHA na Columbia. Sendo assim, David Goyer (roteirista de BLADE e BATMAN BEGINS e diretor de BLADE TRINITY) está fora da adaptação de FLASH enquanto Joss Whedon (BUFFY, ANGEL e FIREFLY/SERENITY) não será mais o diretor de MULHER MARAVILHA. Ambos citam diferenças com o estúdio, que não quer mais abordagens sérias para seus heróis. Até aí, tudo bem, nenhum dos dois é uma grande perda para mim. O problema é que FLASH já tem um novo diretor: o péssimo Shawn Levy, que surpreendeu (no sentido monetário, não no de qualidade) a todos com o mega sucesso de UMA NOITE NO MUSEU, que eu ainda não vi. Mas os trailers são péssimos, assim como os outros filmes do diretor que já pude conferir. […]

  6. Sávio Morais Cristofoletti disse,

    24 de Março de 2007 @ 00:57

    Quem escreveu esta matéria sabe dissertar muito bem, meus parabéns! Eu não vejo tanto problema em pegar a história andando, embora preferisse uma história realmente nova. Para mim, o problema maior é a falta de um roteiro melhor, menos longo e mais original e também a falta de ação, que só ocorre em duas cenas, para 154 minutos. O filme não é ruim, mas está longe de ser ótimo. Considerando o orçamento, o diretor e a duração, era de se esperar um filme não apenas bom, e sim ótimo. Pelo tanto que gastaram com pré-produções anteriores e com o orçamento final e definitivo, o filme deveria ter rendido mais de 500 milhões, mas de longe nem chegou a 400. Singer entende bastante de X-Men e fez de Os Suspeitos um verdadeiro clássico, mas a Warner devia ter colocado um diretor mais comprometido. Não que, ele seja um Joel Schumacher ou um Pitof da vida, muito pelo contrário. Mas, eu não seria louco de achar que, aquele roteiro iria render absurdos 500 milhões! Eu sabia que, o filme não seria tão bom como prometeram. Sam Raimi e Christopher Nolan detonaram, com o Homem-Aranha e o Batman, fazendo Bryan Singer parecer um coitado.

  7. A GALÁXIA » FINALMENTE O RECONHECIMENTO disse,

    11 de Maio de 2007 @ 12:13

    […] Melhor Filme Ficção: FILHOS DA ESPERANÇA Melhor Filme Fantasia: SUPERMAN - O RETORNO Melhor Filme Horror: ABISMO DO MEDO Melhor Filme Ação/Aventura/Thriller: CASSINO ROYALE Melhor Animação: CARROS Melhor Filme Internacional: O LABIRINTO DO FAUNO […]

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