CRIME DE MESTRE, UM (por Kas)

crime mestre - crime mestre

FRACTURE, EUA, 2007
De Gregory Hoblit
Com Anthony Hopkins, Ryan Gosling, David Strathaim, Billy Burke, Rosamund Pike, Embeth Davidtz, Xander Berkeley, Fiona Shaw

O milionário Ted Crawford, preso pela tentativa de assassinato de sua mulher, explica ao jovem promotor público William Beachum sua tese sobre o ser humano: Cada um tem sua fraqueza, sua rachadura. Basta descobrir qual é. É onde o roteiro explicita o significado do título original deste UM CRIME DE MESTRE, do diretor Gregory Hoblit: FRACTURE, rachadura, trinca, fratura. Crawford pode estar se referindo àquele ser humano sentado à sua frente e o qual procura desnudar, mas da mesma forma Beachum procurará pelo ponto fraco no plano diabólico do milionário, que comete um crime teoricamente às claras sem deixar nada que o incrimine ao longo do caminho.

O embate entre os antagonistas é o que torna o filme de Hoblit um passatempo até certo ponto fascinante. Anthony Hopkins, que faz Crawford, externaliza esta sensação através de sua interpretação. Crawford/Hopkins começa o filme quase anestesiado, preparando passo a passo e de forma primorosa seu crime contra a esposa adúltera (Embeth Davidtz, de A LISTA DE SCHINDLER). Cada nova etapa, inclusive o crime em si, é cumprida sem que o ator/personagem mostre nenhuma sensação além do tédio absoluto, nem mesmo quando ele declara amor a ela antes de atirar à queima-roupa em sua face. Este estado de letargia é resultante na certeza absoluta de Crawford de que não será condenado, de que seu plano não apresenta falhas, assim como os elaborados mecanismos de precisão que tem como hobby fabricar.

Até que entra em cena o ambicioso Beachum (Ryan Gosling, do açucarado DIÁRIO DE UMA PAIXÃO, recém-saído de uma indicação ao Oscar pelo ainda inédito HALF NELSON). De origem humilde, o jovem promotor tem uma folha corrida impecável na área, com quase 100º% de condenações. Este mesmo currículo que o leva a ser contratado por uma grande firma de advocacia ameaça a supremacia do milionário, e esta ameaça é que traz graça a seu jogo e um brilho até então ausente em seu olhar. O caso Crawford é a última tarefa de Beachum na promotoria antes de assumir o novo emprego. A princípio, parece um caso fácil, que não despenderá muito de seu tempo e atenção. É esta arrogância que Crawford percebe no jovem, e que usará contra ele. Qual é a minha falha?, pergunta Beachum na cena de interrogatório citada acima. Você é um vencedor., sentencia Crawford.

A partir daí, um jogo de gato e rato se instaura entre os dois, com as esperadas ramificações (como o gratuito e improvável romance entre o personagem de Gosling e sua futura chefe, vivida pela ex-Bond Girl Rosamund Pike) e reviravoltas que fazem a receita deste tipo de thriller. De forma a assegurar a carreira e a alma, o promotor tem de descobrir o que foi feito da arma do crime e o que Crawford foi fazer no motel onde os dois amantes se encontravam, pouco antes de cometer o atentado. É quando o próprio filme apresenta seu ponto fraco, já que entrega toda a armação ao público desde o início, enquanto o herói permanece até perto do final alheio ao plano diabólico do vilão. Hoblit é um diretor competente, como mostrou em AS DUAS FACES DE UM CRIME e ALTA FREQUÊNCIA, e conduz com bom ritmo a trama e os atores. Mas não consegue iludir o público a ponto de esconder a falha estrutural de seu próprio relato.

Nota: ** ½

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7 Comentários »

  1. A GALÁXIA » UM CRIME DE MESTRE NÃO ENGANA O KAS disse,

    11 de Maio de 2007 @ 11:21

    […] […]

  2. Tadeu disse,

    15 de Maio de 2007 @ 10:07

    Ontem eu vi este filme. Concordo com o que você escreveu. Achei o filme interessante, o elenco bem escolhido, mas gostraia de ver mais cenas com o David Straitham. O que me incomoda e atrapalha o filme, na minha opinião, é a necessidade de se dar um final hollywoodiano. Porque o promotor não poderia simplesmente perder o caso e o personagem do Anthony Hopkins se dar bem? Aquela esticadinha no final acabou com filme. O promotor tinha que perder para entender que na vida umas vezes vc ganha e outras vc perde. Aquela necessidade de arredondar tudo no final é decepcionante … apesar de que como vc disse na sua resenha desde o inicio já sabemos que todo ser humano tem sua fraqueza, sua fratura … e, logicamente, isso se aplicaria ao próprio autor da tese.

    Guardada as devidas proporções, isso me lembra um filme que poderia ser um dos melhores filmes policiais de todos os tempos … HEAT do Michael Mann. Ah se não fossem aqueles quinze minutos finais! Acho que nunca senti tão mal em um filme quando vi aquele final se formando.

  3. Kas disse,

    15 de Maio de 2007 @ 10:27

    Também sinto o mesmo com relação ao FOGO CONTRA FOGO. É até um que eu tenho de reavaliar, mas o considero frustrante, apesar das evidentes qualidades. E ao contrário do que boa parte da crítica diz, gosto bastante de Pacino e De Niro no filme.

  4. Luciano disse,

    28 de Junho de 2007 @ 14:20

    Cara, é inacreditável que o assassino não previu a falha… acho que todos no cinema viram que em a esposa morrendo a acusação muda… so isso que o desabona, de resto o filme é muito bom.

  5. Morgana disse,

    9 de Agosto de 2007 @ 13:20

    Bom vi que vc analisa bem o filme e tal, minha questão foge um pouco do seu contexto mais enfim, se puder me ajudar ficarei grata.No filme o Advogado Beachum está no hospital passando um tempo com a esposa do Crawford e le um trecho de um livro azul para ela, eu já busquei não sei se esse pequeno trecho só foi criado para o filme ou se já existia, pois não encontrei de forma alguma……se souber onde posso encontrar ou algo assim eu agradeço de verdade.

    Vou olhas os comentários daqui sempre para ver se responde ao meu.

    Muito Obrigada

  6. Leonardo disse,

    4 de Outubro de 2007 @ 15:06

    Acontece que, ao menos no direito penal brasileiro, parece não haver consistencia a ideia de que a esposa morrendo ele pode ser condenado por um novo crime. Aqui, não se julga novamente alguém por homicídio que já foi anteriormente julgado por tentativa pelo simples fato de, após o julgamento, a vítima ter falecido. O autor ja foi julgado pela sua ação, não importando qual resultado dela decoreu e, no caso do filme, inocentado. Ou seja,por insuficiências de provas ele sequer foi condenado por tentativa. Como poderá agora ser processado por homicídio??? Até para um leigo, não e difícil deduzir..

  7. Leonardo Marzullo disse,

    4 de Outubro de 2007 @ 15:24

    Para complementar, conforme liçoes de Vicente Greco Filho:

    ” O que define, pois, a coisa julgada é o núcleo da infração em seu significado essencial, não importando os seus elementos acidentais. Se o núcleo da infração foi trazido a juízo, ainda que os elementos secundários ou acidentais sejam diferentes na realidade, não se admitirá nova ação penal sobre o mesmo fato. ”

    Frise sempre: no direito brasileiro.. realmente não sei como é a legislação norte-americana acerca desse tema mas acredito não ser muito diferente.!

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