ZODÍACO (por Kas)

ZODIAC, EUA, 2007
De David Fincher
Com Jake Gyllenhaal, Robert Downey Jr., Mark Ruffalo, Anthony Edwards, Philip Baker Haal
Ao contrário do que aparenta, ZODÍACO não é o filme contido e convencional que a crítica vem apregoando ao diretor David Fincher, dado a arroubos de experimentação técnica em filmes como CLUBE DA LUTA e O QUARTO DO PÂNICO. Nem é uma releitura de SEVEN - OS SETE CRIMES CAPITAIS, ainda o maior sucesso do diretor e também focado em um serial killer. Fincher consegue voltar ao tema daquele filme, mantendo a experimentação que lhe fascina, só que não a colocando em primeiro plano como fez em seus trabalhos anteriores.
Ao contrário de SEVEN, ZODÍACO fala sobre um assassino serial real, que aterrorizou a Califórnia nas décadas de 60 e 70. Só que foca menos no assassino em si, cuja identidade nunca foi comprovada, e mais no processo investigativo perpetrado por um repórter (Robert Downey Jr.) e um cartunista (Jake Gyllenhaal) do San Francisco Chronicle e por uma dupla de policiais (Mark Ruffalo e Anthony Edwards). Fincher faz assim o seu TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE, o filme de Alan J. Pakula que explorou o trabalho dos dois jornalistas do Washington Post para desbaratar a conspiração que culminou na renúncia do Presidente Nixon. Esta aproximação não é só temática. Fincher realiza um filme ambicioso, minucioso e se mostra tão obsessivo com os detalhes da investigação quanto seus personagens. Obsessão, aliás, é a chave do filme, e nesse ponto ZODÍACO não faria feio na filmografia de outro cineasta contemporâneo, Christopher Nolan (de BATMAN BEGINS e O GRANDE TRUQUE). Assim, Fincher se afasta de seu tema favorito, o de como o homem retorna ao estado pré-civilizatório em ambientes ou situações hostis, para embarcar em uma narrativa que reproduz o mesmo perfeccionismo e preocupação com detalhes que marca seu trabalho atrás das câmeras e que lhe deu a fama de um cineasta difícil. É devastador como a obsessão que se instaura nos personagens centrais vai destruindo suas vidas e sua relação com o meio ao longo do caminho.
Outro ponto em comum entre ZODÍACO e o filme de Pakula é a forma. Enquanto TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE é uma típica produção resultante da madura fornada da década de 70, ZODÍACO, produzido 30 anos depois, faz de tudo para parecer um filhote daquela época. É aí que entra o completo domínio que o diretor tem dos elementos cinematográficos e da tecnologia digital, mais do que nunca aplicados em função da trama e da ambientação. Fincher, como o Michael Mann de COLATERAL e MIAMI VICE, utiliza a captação digital de imagens não para simular ou copiar uma imagem em película e sim para explorar o potencial que o sistema oferece para a criação de cores e texturas únicas do processo digital. E o faz com tal elegância e discrição que passa em branco ao olhar mais desavisado, daí as tais críticas relatadas acima. Não se engane: por trás do visual setentista, propositadamente envelhecido, encontra-se o que de mais moderno existe em efeitos e câmeras digitais de alta definição.
Mas como o que se esconde nos bastidores interessa mais aos críticos e aos estudiosos, o que realmente importa aqui é a forma como o espectador capta o resultado das técnicas empregadas. E a sensação é de que este está vivendo aquele período, ou de que pelo menos se lembra dele com a mesma intensidade que o diretor. Este era apenas um garoto (o que nos faz imaginar que ele poderia muito bem ser um dos filhos do personagem de Gyllenhaal) na ocasião, mas se recorda vivamente do terror que se instaurou em toda a população. Como em O VERÃO DE SAM de Spike Lee (que também mostrava como os mesmos crimes afetavam uma vizinhança) e BOOGIE NIGHTS de Paul Thomas Anderson, as referências estão tanto nas cores e cenários quanto nos gestos e atitudes (repare também nas datadas aberturas da Warner e Paramount). É por tudo isso o trabalho mais maduro do diretor. E uma experiência fascinante mesmo para aqueles que ainda usavam fraudas na época retratada.
Nota: ****
| Enviar por e-mail | Hits para esta publicação: 610
7 Comentários »
RSS para comentários nesta publicação · URI para link desta publicação:
Deixe um Comentário
Você deve estar conectado para postar um comentário.
Tadeu disse,
1 de Junho de 2007 @ 16:08
Kas … vc conseguiu …. estou salivando … tenho que ver esse filme hoje! Ah … hoje não dá … mas amanhã sem falta! Este é o primeiro dos três filmes que mais anseio assistir esse ano!
Tadeu disse,
5 de Junho de 2007 @ 10:57
Não consegui ir no fim de semana, mas ontem matei aula pra ver o filme … adorei! Sensacional! Fotografia, a reconstituição dos anos 70, o roteiro, a interpretação dos atores que por sinal foram muito bem escolhidos … verdadeiro show! Realmente parece um filme perdido que foi feito nos anos 70 e as conexões com BULLIT e DIRT HARRY foram ótimas. Davdi Fincher demorou para fazer esse filme, mas a espera valeu apena. Ele conseguiu deixar sua assinatura em uma história que deixou marcas no inconsciente coletivo americano. Agora … já li sobre uma outra teoria que tenta provar com um emaranhado de “fatos” e “coincidências” que o ZODIAC e o UNABOMBER são a mesma pessoa …será?
Kas disse,
5 de Junho de 2007 @ 11:18
Tadeu e suas teorias da conspiração… Gostei bastante também da referência ao ZAROFF - O CAÇADOR DE VIDAS que, aliás, é um filme bem mais influente do que poderia supor (O ALVO com Van Damme, SURVIVING THE GAME com Ice T). ZAROFF é uma aventura realmente formidável, que vale a pena conhecer. Não sabia que o Zodíaco tinha se inspirado no filme não, o que é interessante, considerando que o assassino da Dália Negra, segundo o De Palma (não li o romance de James Ellroy) se inspirou em O HOMEM QUE RI. É, acho que afinal o cinema realmente leva aos crimes. Sendo assim, somos todos aqui psychos em potencial.
Tadeu disse,
6 de Junho de 2007 @ 10:18
Não conheço ZAROFF, logicamente fiquei curioso para assistir. Voltando ao ZODÌACO é interessante, ou melhor, “sufocante” perceber como os caminhos da Lei são tortuosos … mesmo com tantas evidências que acharam no trailer do Leigh, o cinismo dele, seu passado negro…. tudo, aos olhos da Justiça, não passava de provas circunstanciais. É impressionante! Graças a Deus que não sou advogado … se não pirava!
Kas disse,
6 de Junho de 2007 @ 10:48
Se eu fosse advogado ou, pior ainda, promotor e juiz, ia ficar bem tentado a virar vigilante, que nem o Nicholas Marshall, protagonista daquela série que passava na Globo, JUSTIÇA CEGA. Lembra desta?
Tadeu disse,
6 de Junho de 2007 @ 14:41
Lembro … mas não acompanhava muito. O meu irmão que era fã da série, não perdia um. E o JUDGE DREDD encaixa no perfil?
Kas disse,
6 de Junho de 2007 @ 14:59
Mais ou menos. O Judge Dredd executa a sentença ele mesmo, dentro da lei. Já o Nicholas Marshall fazia tudo fora da lei, apenas indo atrás dos que tinha certeza serem culpados, mas que por alguma burocracia acabam sendo soltos. Aliás, o Gelogurte achou no IMDB o discurso de abertura da série, que é bem bacana:
As a cop I lost my collars to legal loopholes, but I believed in the system. As a D.A. I lost my case to crooked lawyers, but I believed in the system. As a judge my hands were bound by the letter of the law, but I believed in the system. Until they took my life away. Then I stopped believing in the system and started believing in justice.
Tem um personagem de quadrinhos, da fase Marv Wolfman/George Pérez nos TITÃS, que era também um juiz honesto e que pira completamente depois que matam toda a sua família. Aí ele veste um colant e vira um vigilante. Esqueci o nome do sujeito, mas era algo bem genérico…